segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma prece

Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos




Hoje eu rezo.
Meio sem querer, peço em palavras alentos de existência. 
Uma a uma, dando as mãos em prece.
Uma prece solitária, com a cabeça no travesseiro e os olhos fechados para sentir o escuro.

Que meu coração não saiba que um dia eu chorei por ele.
Que ele não escute um lamento sequer, pois os lamentos são efêmeros quando exteriorizados.
Que meus lamentos sejam silenciosos, contidos, latentes.
Que a minha solidão de hoje seja só minha, como um fruto que colho pelos acontecimentos.
Que a minha dúvida ande sempre paralela, arredia, sucumbente.
Que ele não saiba da sua importância, pois as importâncias são individuais e assustadoras.
Que eu consiga acertar o passo, ajeitar a face, conter os sentimentos.
Que a minha explosão possa se diluir, possa se dissipar antes da tempestade.
E a tempestade, se tiver que vir, que deixe a terra úmida para a próxima colheita.
Que meu amor possa vibrar, possa atingir.
Que ele seja forte para agüentar a humanidade, para assimilar os erros e suportar os acertos.
Que eu descubra que ser mulher é ser humano,
Que a vontade de chorar não passa,
Que a vontade de sorrir não passa,
Que a vontade não passa.
Que eu saiba sentir a sua falta,
E saiba respeitar os momentos da minha própria reclusão.
Que eu conheça as limitações, e tenha a paciência necessária para aceitá-las.
Que eu possa transformar o fim em novos começos,
A dor em possibilidades de novas flores estranhas. 

E que, sobretudo, como já aprendi,
“Meu largo canto vibre acima dos ódios e ressentimentos,
Das intrigas e vinganças,
Nos espaços infinitos”

Axé.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Adeus, Mãe

Por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos

Eu queria que você me dissesse que tudo vai ficar bem, que vou poder experimentar novamente aquela sensação de entrega e acolhimento que algumas vezes vivi nos seus braços. Eu queria saber se você realmente foi capaz de me amar ou se mais uma vez lancei meu corpo para braços que me deixaram desmantelar.

As vezes eu sou pesada, talvez porque invista tanto na necessidade da leveza. Talvez porque eu queira ser tanto o ideal que eu tracei para mim que ele sempre parece estar a frente e longe de mim. Eu o persigo enquanto ele foge e me sinto só.

Eu queria apenas o silencio. Eu queria apenas rir com você e de alguma forma fazer sentido na sua vida. Mais uma vez me sinto abandonada neste mundo tendo que me virar sozinha.

Eu não me viro tão bem como as pessoas imaginam, você sabe. Eu vivo tropeçando nas quinas, errando as esquinas. Eu me sinto perdida a maioria das vezes. Talvez as coisas façam sentido nas palavras.

Eu queria apenas que você me embalasse e que me cantasse canções de ninar para fazer dormir esta parte impulsiva de mim. Eu não consegui chorar com a despedida, mas eu estava chorando enquanto dizia que estava tudo bem.

Não está tudo bem. Eu me sinto sozinha. Solidão é quando a gente não sabe se gosta muito da gente. Sabe, eu não sei se gosto tanto assim de ser eu mesma.

Eu escolhi isso. Eu sei. Fui eu quem pegou as roupas, arrumou a mala e esperou você chegar para bater a porta e dizer adeus. Eu queria que você dissesse que eu sou importante e me pedisse para ficar. Você me disse adeus e agora eu não sei para onde ir e nem em que colo chorar .Estou parada na porta da casa que já foi minha, me sentindo lançada no mundo. O mundo que sempre desejei e agora me amedronta.

Desculpe pela minha falta de coerência. Eu só sei ser poesia. Daquelas que brotam entre lágrimas e pulsos de vida.

Não me leve tão a sério. Eu coloco a lupa nos sentimentos porque parece que quando estão maiores fazem um sentido profético.

Eu parti, estou no mundo. Vou sentir saudades. Sei que em breve seremos apenas lembranças passageiras. Por hora ainda dói a partida. Ela tem cheiro de falha.

Você me avisou das dificuldades. Achei que eu ia dar conta. Nunca imaginei que o quarto que entraria seria tão alheio a minha razão. Ela simplesmente não opera lá.

Agora eu vou seguir, molhando-me na chuva e entre lágrimas e sóis, e deliciar me com a efemeridade do arco Iris.

Adeus, Mãe. Ainda te encontro dentro de mim.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Coragem de pés descalços

 Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos

 
Ela estava cumprindo uma coragem.

Vestiu as botas guardadas no velho baú, e saiu rumo ao desconhecido que aparecia quando o silêncio lhe tomava o pensamento. Seguiu o caminho do sonho real de imagens e sentimentos, que pulavam coloridos no escuro dos olhos fechados.

No sonho estava parte fundante da realidade. O intangível que corporificava os seus anseios velados. O norte que brilhava sob a luz da lanterna, e lhe apontava a direção dos passos.

Apertou as botas firmes aos pés, e seguiu com a parcimônia de quem descobre como andar no escuro. A luz da lua era-lhe companheira. Por vezes aparecia forte, e por vezes sumia escorregadia por entre nuvens e trovoadas. Mas estava lá, firme, perene por trás das controvérsias do tempo.

E ela seguia a sua coragem. Às vezes muda trêmula de frio, às vezes falante de sons quentes. Cantarolando versos, esgarçando a garganta, soltando sorrisos largos ao vento. Esfregando os dedos, roendo unhas, investigando angústias. Tocando os muitos nós secretos incrustados na grande rocha perto do peito.

Ela andava os muitos rumos de sonhos. Quilômetros duros de enfrentamentos. Subidas e descidas de morros de dúvidas. Escaladas sem ar. As botas foram ficando sujas de barro grosso. Os dedos suados de pingos vermelhos. Os pés visitados por calos saltitantes de quem percorre lacunas.

Ela era ambiciosa. Queria a felicidade verdadeira, que se escondia por trás das armadilhas e abrigos fáceis. Que corria para longe das artificialidades e jogos de individualidades exacerbadas.

Ela queria o outro. O outro como parte importante de si própria. O outro inteiro, que ela precisava partilhar e incorporar para ser grande. O outro que eram outros insubstituíveis – cada qual com a sua importância indizível de ser. Cada qual completando-lhe e iluminando-lhe à sua maneira. E ela queria ser, o tanto que coubesse ser. Era possível ser tudo? Sim, ela era ambiciosa.

Armou a sua barraca na beira do rio que descia o enlevo. Tirou as botas e colocou os pés na água corrente. Era ela e o líquido doce que corria sem dono. Ela e o horizonte rosa do cerrado. Ela o apaixonamento inesperado pelo feminino que não sabia existir dentro de si.

Sentiu as suas ardências de febre de sol. Sua voracidade que não tinha alento na água corrente. Os muitos que lhe habitavam o coração. Anoiteceu.

Ela descalça pisou o chão de estrelas. A lua lhe sorriu disfarçadamente, e ela entregou ao espaço infinito as suas indagações. Com coragem para as lágrimas que pulavam de seus olhos cansados. Para a dor de querer o tudo que podia ser nada.

Acendeu a fogueira, e banhou-se da fumaça perfumada de folhas secas. Alimentou a esperança de viver pulsando o fogo sagrado. O fogo que lhe queimava por dentro, e lhe impulsionava a seguir a rota das estrelas.

Fechou os olhos para enxergar a realidade.
Com calor e coragem.





quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Para ex-terapeuta


Por: KaliDesenho: Ana Vasconcellos
Eu não quero despir minhas idiossincrasias e ficar nua e expondo minhas amarras corporais. Não quero pendurar na cadeira verde flácida que não me sustenta as meias partes de mim. Nem que você toque meu corpo.
Não quero deitar no chão e deixar meu coração aberto, exposto ao seu toque. Quero apenas sentar encolhida e dizer o quanto tudo isso está doendo aqui dentro. Não quero seu abraço, tão pouco sua voz que se força a ser meiga e acolhedora. Eu quero apenas que você sente e me ouça.
Sabe, quando te escolhi lá do céu e de novo agora eu queria aprender a ser amada e protegida. Eu só queria alguém que me protegesse profundamente das insanidades que me acomentem. Do meu medo de ser só, do meu pânico profundo de ser excluída.
Fui impedida de viver o meu direito de nascer. Privada do colo, do peito. Mas eu acho que eu escolhi isso. Escolhi essas feridas para que no caminho encontrasse o remédio, visse a mim mesma. Foi um plano meio doido  e doído que tracei para minha própria alma.
Eu tenho orgulho de ser eu. Por que só eu sei o quanto caminhei para chegar até aqui. Quantas vezes me perdi no amor, quantas vezes confiei cegamente nas pessoas e me espetei. Quantas vezes dividi  aquilo que eu sabia e me meti em terríveis enrascadas.
Eu sempre procurei alguém para acolher minhas estranhezas, para me amar apesar delas. Mas acho que eu mesma não consigo amar tantas delas. É difícil ser profunda e expandida além do mundo real. Pode ser um surto psicótico. Assim que chamam isso nesta terra?
Cansei de escolher as mães erradas e talvez galhos secos e mortos para me segurar na queda. Talvez por isso eu busque ajuda para, não mais querer lapidar com estacas as minhas arestas, mas acolher e encontrar a flexibilidade para ser feliz da maneira que eu sou.
Eu me senti abandonada e excluída. Já subi em mil palcos em que os aplausos eram silencio porque aquela que eu queria que aplaudisse era cega e surda.
Eu te vi fugir e se esconder, criar situações para na sua visão me proteger, mas que me feriu tão profundamente que neste momento me vejo aos pedaços, tentando entender o que o Universo quer me ensinar. A única resposta que me vem é sina. Escolhi o espelho de minha mãe uma outra que fez algo ainda muito mais dolorido. Isso porque eu sou capaz de sentir o amor que ela manifesta de sua forma, mas ainda sim, amor. Em você vejo apenas  um desejo de ajudar sem a capacidade de amar e acolher.
Voce nunca me acolheu. Em nenhuma de minhas situações reais de fragilidades profundas. Eu não sei quem você é. Eu não sei como esta história vai acabar. Só sei que eu não dou mais conta de me sentir assim e de novo, com coração aberto, feridas expostas e aquela que poderia com o calor das mãos amenizar a pulsão, ser aquela que futuca o tecido mais purulento.
Eu pensei, Mãe, que a gente podia ser amiga. Mais uma vez não foi possível. Mais uma vez eu fui largada no berçário frio sem peito ou colo e acolhida por uma Mãe da Mãe cheia de insanidades.
Talvez seja um teste para eu realmente questionar a missão da minha alma. E retornando para casa pensei em deixar tudo, como sempre fiz para que você pudesse ser plena em sua maternidade com a minha irmã. Penso como terminar este texto e não consigo. Dentro e fora de mim a menina chora, abraçada com seu ursinho, na tentativa de que as lagrimas saiam e curem as feridas remachucadas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mutações

Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos


Repetia histórias mal contadas para si mesma.

Naqueles tempos, conseguiu olhar para a maquiagem que lhe transbordava em tons quentes. A pele avermelhada, acumulada com o passar dos anos, começava a descamar pelas chuvas fortes que resolveram lavar seu corpo. O hoje era frio de pingos espetados. E ela tinha sede.

Descamava. Puxava a rubra pele de borracha, que saia em pedaços grossos. Grossas heranças que se acoplaram ao que ela era hoje. E se dispersavam, uma a uma, pingando no chão lembranças e traços desconexos. Dores e angústias camufladas em pele de camaleão.

Esfregou o rosto, e enxergou os borrões sem lastro que pesavam o seu rosto de mulher de sorriso largo. Assustava-se consigo mesma. Mas o susto era bom. Era resgate de entranhas. Fitou o espelho, em pêlos nus. Ela queria ser o que era - mesmo que fosse a ausência de cores vibrantes. O cinza-chumbo por entre os dedos.

Sentia-se preparada para tocar o vazio. Com os olhos despertos para aceitar o que não via. Para abraçar a beleza crua do que escondia por trás de. Para saber-se ossos, carne e veias abertas. Coração pulsante de estranhezas e repugnâncias.   

A pele vermelha rachava-lhe o corpo. Áspera, descamada, incômoda. Ela estava mutante. E não sabia o que enxergaria depois que toda a pele caísse em pedaços. Juntou os fragmentos já dispersos, e colocou-os junto à árvore do quintal de terra. Acendeu uma vela, e disse preces em línguas ancestrais. Preces que sequer compreendia com voz de razão. Rezou pela mutação. Pelo que deixava ir. Pelo novo sem nome que haveria de tomar-lhe o corpo.

Ajoelhou-se ainda nua, sob o céu que se abria em nuvens carregadas.
Ela estava viva.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

De quedas e vazios

Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos



Ela estava partida.

Enfim, havia chegado o momento. Ela se aproximou lentamente do abismo, e pisou o vazio do chão sem lastro. Um único passo, certeiro e fatal, que a sugou para dentro da queda. Um único segundo e ela estava lá, inteira, deslizando pelo vazio sem começo nem fim. Distante das bandeiras que marcavam o caminho de volta. 

Arrepiou-se - em poros abertos. O vento lhe beijava os cabelos, e ela caia. Escorregava as mãos pelo limo verde, e sentia o ar frio adentrar-lhe as entranhas. Ainda tonta pela vertigem da queda. Ainda perdida pelo buraco que lhe comia a consciência. 

Percorria-lhe o corpo apenas a leveza dos pés descalços. A densidade da matéria solta no ar. O medo de não saber onde alcançaria o chão novamente. Tudo era novo. Tudo escuro, resplandecendo em novas possibilidades de si mesma. 

Era hora de deixar sair o que escondia dentro do casulo. De se desapegar do que era só dela, perdido em pensamentos de labirinto. Dos segredos que murmuravam em suas veias, e feriam-lhe o coração assustado. O medo era gelado.

Era hora de abrir as suas asas de borboletas, e plainar sobre a imensidão disforme que lhe aparecia diante dos olhos. Amenizar a queda com as asas abertas. Saborear o desconcerto com gosto de liberdade.

Mas ela só conseguia arranhar as unhas no verde escorregadio. Ainda presa pela sensação de pertencer à terra firme. Sentia-se flutuar, e sorria da sua fluidez dispersa. Perplexa pela grandeza de não saber. O coração batendo na boca. A voz rouca engolindo sílabas de ar. A saliva concentrada na língua perdida por entre os dentes.

A vida em tons de cinza. Nem cá, nem lá.
Corpo de nuvens.

sábado, 6 de novembro de 2010

Vertigens

Por Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos

Quando se aproximou do abismo, sentiu a vertigem tomar-lhe o corpo. Aquela tontura costumeira, o formigamento quase elétrico, o frio a lhe percorrer a espinha. Estava à beira de, pairando sobre o precipício de si mesma. Tudo amplo e vasto, disforme, sem começo nem fim. Ela sentou-se na ponta do grande penhasco, devastada pela sensação de dormência e medo do limite em que podia fincar seus pés no chão.

Tudo teve início quando ela resolveu entrar naquele buraco fosco. Desbravar o mato que cobria a entrada, tomar banho de cachoeira de inundar-lhe o ventre. Dar o passo em direção ao caminho de nuvens que jamais ousara adentrar. E agora ela estava lá dentro. Tomada pelo impulso inevitável de apenas seguir. Seguir aquilo que se é. Tudo era urgente, tudo era mais. Era hora da travessia, e ela sabia que precisava enfrentar suas tempestades. Sozinha.

Ela sentia o vento que soprava no escuro. A sensação de vertigem era companheira de longa data. Alimentava-a dentro de si, desde que se lembrava caminhar com as próprias pernas. A sensação de quase ir. De tocar e recuar. De sentir o impulso de pular, mas agarrar-se ao chão conhecido que lhe esquentava os pés. De contentar-se com sentir intenso que nunca vai. Viciou-se, adicta ao formigamento sem nome. Viva presa e viva solta.

Amarrou uma corda aos pés para não ir longe. Para ter certeza de que sempre se lembraria do caminho de volta. Mas naquele dia, sentada à beira do precipício, sentiu pela primeira vez a vontade desmedida de cortar a corda. De se deixar ir, de romper o ciclo vertiginoso do quase. De pular e esquecer o caminho de volta.

Era preciso confiar. E ela ainda era menina desconfiada. Vencia-se um pouco a cada dia, ouvindo o vento forte lhe contar sobre o fluxo da vida. O fluxo de si própria, que se esticava e enfrentava a corda que já mostrava sinais de esgarçamento.

Namorava o escuro com vontade de queda. Queda livre.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pinóquio

por: Kali
Desenho: Ana

Estava no céu celestial perfeito, desembrulhando os papéis azuis das maças. Decidiu nascer quando viu refletido no espelho de si mesma o amor entre dois jovens. Talvez ela tenha chegado depois do gozo urgente na escada do prédio. Escura, sombria, misteriosa entrada naquelas entranhas adolescentes.

Nada sabe sobre o tempo que ficou guardada na concha, esperando a hora da abertura para a revelação da pérola. Apenas que causava em sua mãe uma vontade de pipoca e chiclete. No céu só havia maças.

Seu segundo desembarque foi igualmente sem poesia. Cortaram o ventre da pequena para tirar na marra aquela que tentava nascer. Em viagens internas adormecida ela ainda sonhava com um pequeno orifício que tentava se encaixar e uma sensação de queda abrupta por ter sido retirada pelos pés.

O frio da madrugada que lembra a primeira separação. Ela tentou segurar na toalha da fria balança que revelava o peso, de início e para sempre de um corpo robusto. Quase quatro quilos de medo e choro. Onde estava o amor? Onde estavam os braços e seios que um dia ela imaginou? Agulhas, viradas abruptas, colírios cegantes.

Onde estava a poesia que vira lá de cima? Ela, depois de muito tempo, encontrou os seios. Mamava com volupia até tirar sangue da menina, que chorava e persistia. Ele regugitava e lhe diziam que estava doente. Deram-lhe um veneno que quase tirou-lhe a vida. O menino correu com ela e não dexou. Tantas vezes ela desejou profundamente ter deixado o placo antes que pudesse ficar em pé. ela sabia que não era essa sua história.

Durou tão pouco tempo a era do peito e colo. Antes de meio ano já estava entregue a comida deste mundo, que devorava com vontade na tentativa de que o estômago cheio preenchesse o coração que faltava um pedaço.

Antes que se desse conta, um outro ser ocupava seu berço, seus seios, os braços. Deixada na estrada descobriu que era um anjo e que anjos e humanos não tem uma relação plena.

Adentrou no mundo tecnológico das máquinas na tentativa de encontrar a fada madrinha. Ela sabia o que queria. Queria ser uma menina de verdade para que um dia a mãe pudesse lhe amar, de início e para sempre. Mergulhou profundamente em uma alagada cidade de memórias antigas. Diante da fada, congelou porque as águas tornaram frias demais com o passar dos anos e das eras glaciais.

Até que o sol veio a derreter e fazer chorar as águas internas. Saiu e encontrou um espelho. Aquele mesmo que vira antes de chegar enquanto saboreava sua maça. Diante da menina dos olhos da fada ela se viu menina de verdade. Olhou mais fundo e viu brilhantes sorridentes olhos cor de romã a lhe fitarem em gratidão. Viu seus próprios olhos a olharem na menina dos olhos da menina mãe.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Fragmentos de vida líquida

Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos





Sentiu o cheiro de vida líquida.

Inebriada, seguiu a rota que se abria pela mata. Coração guia, quase sem consciência do terreno por onde pisava seus anseios sem nome. Sentia apenas a intuição aguçar-lhe as bússolas interiores, em busca de alento. Em busca de elevar-se pelas mãos da natureza.

A mata se abriu em água. Floriu em quedas que rompiam os arredores em suspiros de cascatas. Fazia frio. E ela às voltas com a sua resistência encolhida de bicho ferido. Tinha dor, e lambia a ferida exposta em local secreto - com a língua a tocar o gosto ocre do sangue parado. Sua toca era feita de medos e de ousadias.

Contemplou a força que corria diante de seus olhos. E deixou-se vencer, num só impulso de voracidade. Curvou-se às águas que saltavam vibrantes da cachoeira, impulsionadas pelo volume das chuvas que resolveram desabar sobre o cerrado. Águas bruscas do mês de outubro.

Não se lembrava exatamente como chegara ali. Lembrava-se apenas de estar deitada, nua, sob a água corrente. Cabeça baixa, a reverenciar a mãe deusa que se escondia no manto cristalino que lhe inundava a alma. Líquido gelado sob o corpo quente. Sentia o descontrole das pernas bambas, e ria sozinha de sua pequena estrutura lavada pelas águas. Finalmente ela estava ali.

O gelado penetrava-lhe os ossos, escurecia-lhe a vista, ensurdecia. A correnteza era capaz de lhe levar para outras paragens, sem que ela pudesse oferecer controle. Sim, ela estava vencida - e estar vencida era bom. Rendia-se ao inusitado que lhe flutuava sem trégua. Ela tremia. E o medo escorria pela pele arrepiada, a se misturar com o fluxo que descia rio abaixo.

Para onde ia? Parou por um momento, acordada de susto. Agarrou os galhos de árvore, e fincou os pés na pedra que lhe servia de abrigo. Seus dedos misturaram-se com as folhas verdes que se nutriam de vida liquida. A água não tinha descanso. Fluía livre, próspera, a lhe contar segredos de beira de rio. Sim, ela não sabia. E não saber era bom. Desconhecidamente bom. Era liberdade de força desmedida.

Sentiu sede de grandes goles. Embebedou-se. Ela queria a paz das águas livres. Águas que lavariam os vestígios da métrica de amor e dor, tão arraigada aos seus versos. Que a fariam perseguir outras rimas de amor, mais doces e simples como o canto da corredeira. Desejou com o peito aberto, os olhos brilhando, o sorriso amplo de sinceridades.

Ela então se aqueceu – enrolada em leveza e tranqüilidade. A correnteza ainda percorria-lhe o corpo. Reverberava. E ela queria continuar ali, fitando as margens e sentindo a força liquida lhe penetrar as entranhas. Admirando o fluxo da vida que lhe carregava com generosidade de incógnitas. 

Lembrou de uma frase lida que incorporou aos seus cadernos de poética. “Perto de muita água tudo é feliz”. Sim senhor. Ela tinha sede de muita água.  

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Baile Kali


por: Kali
desenho: Ana

Baile Kali, apenas rodopie sobre mim. Pode aposentar os sapatos de salto, as sapatilhas que esmagam seus dedos finos ou as botas militares que te pesam as pernas. Apenas baile sobre mim. Deixe que eu te penetre pelos dedos e acaricie suas raízes.

Baile, Kali, entre em mim, com seus pés ligeiros para que alcance os céus. E quando cansar, deite sobre mim. Quero enbalar sua menina ferida para que nunca se esqueças da melodae. Entregue-se aos meus braços quentes, deixe que eu lamba as feridas com minhas lágrimas e as segue com meu vento. Quero iluminá-la com o dourado sol do meu cabelo.

Pare de subir em altas montanhas e despecar para descobrir que não tem asas com a face sangrenta no chão. Nâo se debata mais, Kali. Apenas baile. Baile até que cansar, baile até morrer e assim abrirei meus braços para te receber. Mas baile, Kali. Apenas baile sobre mim.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Purulências



Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos

Ela andava novamente envolta com as suas infecções do corpo. Explosões que lhe apareciam em forma de feridas. Inflamações, pus, tonturas, sensações de dormência que lhe rondavam os dias. Febres, dores, catarros, coisas purulentas que lhe saiam pelos mais diversos buracos. Cansaços. Erupções que lhe chegavam de repente, lá do fundo das entranhas que buscavam renovar-se. Que ansiavam por expelir as crostas que não mais lhe serviam.
E havia muito para ser expelido. Desde pequena ela acumulava, em diversas camadas, seus processos internos de não saber. Suas várias perplexidades e solidões, que ela não sabia como conjugar com o mundo lá fora. Que ela não sabia sequer dar nome. Coisas mudas que sopravam intensidades latentes, a lhe perfurar a alma criança.
Ela era menina, e não entendia tantas coisas. Não entendia, por exemplo, porque não se deixava embalar pelo sono. Porque não gostava da noite, e porque chorava sempre que as pessoas iam embora. Porque o dia acabava, e porque ela se agarrava às descobertas miúdas do cotidiano da infância. Porque via coisas que ninguém mais via. Até hoje não entendia.
Lembrou-se das vozes imaginárias que eram presentes na noite escura. Das falas que lhe chegavam aos ouvidos, das imagens que pulavam pelo quarto na madrugada - a assustar a pequena menina de olhos negros e despertos. Ela corria para a cama da mãe, que lhe recebia sempre com o abraço quente. Abraço que lhe sufocava os pulmões com tosse. Que lhe cobria de cuidados ansiosos de super proteção.  
A mãe também tinha medo. E um grande amor exagerado. Também era menina que queria colo, que precisava de abrigo. Que se sentia acolhida toda vez que protegia sua cria em perigo. Toda vez que sentia o amor incondicional aguçar-lhe as veias femininas, e suprir-lhe as carências de outros lugares. A filha era o canal permitido, e mãe saciava-se nas noites da menina insone.
Ela gostava de ter o espaço grande onde podia se esconder sempre que tinha dor ou medo. Refugiou-se nas asas acolhedoras, que lhe contavam que tudo estava resolvido dentro daquele espaço macio. Mentiras verdadeiras da mãe que transbordava, sem começo nem fim. E ali ela se aninhou, por anos e anos. Febres e febres. Doenças e mais doenças.  
...
O tempo esticou a menina grande, que cresceu para além do espaço permitido. As asas comprimiram as suas estruturas. Faltou-lhe o ar. Ela queria abrir as janelas, escancarar as portas. Correr para longe do portão da velha casa, respirando o peito aberto e o corpo pululante. Corpo novo de anseios novos. Novos e velhos medos. Novas boas coragens. E ela correu.  
A mãe sempre temeu as asas vazias. Tinha tanto medo, que fechou os olhos para não ver a menina grande. Para não perceber as pernas longas que não cabiam mais nos seus braços. Gritava desacertos de dor - de não aceitar o que não podia conter. E ao ver a menina correr para longe, desajeitou-se em mágoa descontrolada.
A menina esticada deixou a lembrança das asas enterrada no jardim da casa antiga. E cresceu grande, diluindo-se no mundo azul maduro. Foi atrás do seu caminho, sem trajetos definidos. A mãe a observava com controle remoto. E enviava-lhe, semanalmente, as faturas das contas atrasadas. Não faltava uma semana. As contas chegavam, cheias de números e novas cifras.
Ela não gostava de ver a mãe gritar. De vê-la querer juntar o tempo esvaído pelos buracos da fechadura. De assistir as suas lágrimas secas pularem sem motivo palpável. De tocar a sua dor de olheiras fundas, escondidas sob a maquiagem permanente. Ela corria. Longe e mais longe. Longe-perto-longe.  
Sentia frio nas noites de febre. Buscava o colo quente que não mais estava lá. Sentia-se menina no escuro do quarto de vozes e vultos, sem poder correr para a cama da mãe. Não tinha mais cama. Ela era dona das próprias rédeas. Mulher bem resolvida na luz do dia. Mas seus olhos ainda escondiam o medo do apagar das luzes.
A vida seguia, e ela continuava a expelir suas inflamações de desacertos. Transitava por dentro e por fora, tentando conjugar-se inteira, de verdade, buscando um caminho que um dia lhe faria sentido.
Foi quando, de repente, sentiu uma súbita dor que vinha da garganta. Abriu a boca em frente ao espelho, e fitou suas grandes amídalas. Bem no canto direito, lá estava ela: uma enorme cratera de pus. Amarela viva, incrustada no tecido vermelho. Uma única cratera redonda, a enfeitar seu dia interior.
Ficou parada, contemplando a cena que via em micro sistema. Foi capaz de enxergar-se inteira naquele pequeno fragmento de si. A boca amorteceu, e ela cabia toda ali dentro - perdida no fluxo da respiração que passava canal abaixo. No roçar da língua áspera, que deslizava pela memória dos dentes.
Passaram-se dias, e ela a cuidar da purulência descoberta. Remédios, gargarejos, e a boca aberta. Não conseguia parar de olhar o ponto amarelo, que resistia às suas investidas de combate. Afeiçoou-se à cratera órfã, que expelia com vigor vestígios indigestos de suas profundezas.
Doía. E ela entendeu-se de um jeito estranho. Precisava desapegar-se da menina escondida sob as asas abertas. Da sensação inalcançável de segurança. Da imagem mitológica da mulher grande que viria resolver-lhe os dias de desconsolo.
Precisava entender-se solta, fluida, sozinha, como de fato era. Sem medo de enfrentar os revezes que vinham de dentro. De enfrentar de frente a sua fragilidade, seus pedaços purulentos, suas questões que jamais se resolveriam. Seus tantos outros medos que pulavam amarelos como bolas de pus. 
 Aceitou-se. E a infecção cedeu.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Conto sem ponto


Por: Kali
Imagem: Ana

Ela seguiu o cheiro de carne no ar. E do sangue que pingava no chão, com seus pés descalços começou a pintar o jardim de sua vida. Desenhou cenas tecidas com areias de uma duna efêmera.

Parou  à beira do abismo e sentiu a deliciosa vontade de saltar. Chegara a hora breve de partir? Ela só queria saborear o vento, sentir seu corpo se entregar ao vazio, sem pensar se a queda poderá causar-lhe ferimentos profundos.

Mas o momento que antecede a vontade de saltar a inebria fazendo-a esquecer tudo o que pintou até ali chegar.

Seduzida pelo cheiro do vento produzido por uma nuca que nem me lembrava mais existir, mas que de súbito apareceu, por obra do destino, a causar-lhe um mal/bem inexplicável, daqueles que fazem a gente imaginar que somos pássaros.

Por cima da neblina densa que impede de saber o tamanho da queda, ela acariciou as nuvens, passando cada molécula de água por todo seu corpo, deixando escorrer uma gota pelas por suas intimidades.
Gota que penetra, fecunda poemas esquecidos na biblioteca erótica. O quarto fora aberto e Kali saiu nua seduzindo as tropas, fazendo esquecer as guerras.Girando em volta da fogueira, em uma dança profana e onírica desenhou traços da sua vida, com sangue, pele, cheiro e instinto, desencontrando o ponto final para este conto. E ponto.

domingo, 17 de outubro de 2010

salto.


 Por Ana

Se minh´alma esvair-se sob águas revoltas
Como no escuro, estrela evanescente
Em alvas teias orgânicas me enovelo
Sou um quarto de lua crescente.

Não há espaço
a linha do horizonte não alcança o crepúsculo
Do corpo em brasa sou febre
Da areia que escalda, molusco.

Então subo ao alto da construção
Vomito minha cólera aos deuses do vento
Atiro ao vento minha vida, em vão.

Na calçada, poça de sangue espessa
os braços, imóveis em necrose
e no meio da rua, um pedaço de cabeça.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Flor estranha


Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos




Havia chegado a primavera.

As primeiras chuvas lavaram a terra com a força das águas represadas. Águas esperadas durante tantos meses, ansiadas no tempo seco que a queimara em contradições. Havia chegado o momento de respirar o alento da umidade. O alívio do líquido gelado sob a cabeça quente. Respirou.

A terra perfumada pelas águas desabrochava em desconhecidas flores no jardim. Era tempo de flor. Tempo de suavizar a aspereza, de contemplar a beleza ímpar do que nasce da terra que atravessou as rachaduras do sol.

Ela havia chorado. Havia enfrentando algumas das suas securas de outros tempos. Ousou ser ela, despida de seus artifícios de fuga. Ela era flor estranha. Genuinamente cultivada por medos e desacertos de intimidade. Flor que cresceu em meio a outros elementos, invadida por diferentes feições que faziam dela o que ela era hoje.

Enfrentava o espelho, em pêlos nus. O hoje era um velho conhecido, escondido embaixo de diferentes panos que se acoplaram aos seus quadris. Que camuflaram um pouco do que ela, desajeitadamente, não conseguia ser. Mas ela era.

Estava no seu exílio. Tocando a sua profunda e necessária solidão. Começou a desbravar aquilo que doía, sem se esconder nas relações a habitavam como casa cheia. O hoje era um novo ciclo, que pairava sob o vazio de quartos e corredores. Era difícil enfrentar a mirada solitária da própria face. O silêncio de ser sozinha. De ser aquilo que se é.

Doía. Mas doer libertava. Inspirava coragem para seguir adiante, semeando novas sementes a serem brotadas em diferentes cores. Cores mais suas. Mais cheias de vida vinda do útero que descamava as suas esquisitices de ser mulher. Sentia o cheiro da chuva. Da vida que precisava ser dissipada em céu aberto, e ganhar o mundo sem amarras.

Ela lambeu a chuva de pingos grossos. As poças de lama ganharam volume, e o intenso marrom abraçava seus pés descalços. Inundou-se de terra molhada. Terra fértil, capaz de fecundar as sementes de novos tempos. Tempos cíclicos de novos velhos eus.

Sentiu a terra penetrando-lhe os orifícios. Sua textura densa invadia-lhe os espaços vazios. Escorregava pelos canais abertos e perseguia seu ventre. Terra quente que lhe corria com a força das entranhas, sem pedir licença. Com a força da vida que pulsava e pedia vida-vivida. 

O movimento era de intenso feminino. Ela sentiu prazer. Um prazer doce e próspero, capaz de elevá-la a outros níveis de existência. Uma existência sua, compartilhada com a terra que fincava seus pés no chão.  Com o ar que lhe acariciava o cabelo. Com tudo que sentia rondar-lhe sem saber dar nome.

Sentiu-se mulher feita de terra. E seguiu desabrochando como flor estranha.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Musica para Kali

Por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos

Cansou-se de dividir-se pelo mundo. Buscou em cada um, o pedaço de si na tentativa de remontar-se. Visitou fantasmas do umbral, velhas almas que só habitavam cartas amareladas, memórias antigas em letras de amor.

Faltava-lhe ainda uma parte sem nome ou memória que ela não conseguia acessar. Uma peça feita de desejos, impulsos, sonhos e pesadelos. Um fragmento do tempo dos choros e peitos. Um pedaço sem palavras ou mente. Um não sei que apenas de corpo e sentimento.

Adentrou no labirinto escuro de suas entranhas  tocadas pela nova mãe. Passou pela mente e foi além, no lugar onde palavras não servem, refúgio de peixes cegos e pássaros surdos. Andou temerosa e escutou uma valsa antiga feita para Elise, mas que dizia tanto sobre ela. Ouviu a música e começou a entregar-se ao fluxo das lágrimas que despencavam de seus olhos míopes. E no mar de sentimentos sem nomes viu sua mãe sentada ao piano, confusa e perdida, manifestando sua infantilidade do terceiro setênio em forma de melodia. Uma música que exprimia seu medo de nascer mãe. Doce, profunda, leve e triste, como ela o é.

Em cada nota daquela cena, entendeu um pouco de si. Descobriu o quanto aquela melodia regia com notas e dança dos dedos o ritmo da sua vida. Vestiu-se de bailarina de cabaré entregou-se de braços abertos ao chão duro que feria seu coração. Sentiu medo de amar novamente aquela mãe pequena, de corpo de costelas. Sentiu o medo de não saber dançar a melodia. Face a face com sua tristeza, dançou com ela, sem ritmo, sem compasso, de rostos colados em união impossível.

No pulsar do coração em uníssono encontrou a percussão de sua música. Ela viu ao longe, entre lágrimas, sangue e escuridão, a peça que lhe faltava.

No corpo colado ao seu, nas mãos que afagavam os cabelos com cachos, ela parou de debater-se para permitir-se apaziguar. Sentou com medo da dor de suas feridas velhas e purulentas. Deixou-se tocar a face sem rosnar. As mãos maternas por cima das cascas que ela mesma causou, faziam reluzir a consciência perdida.

Ela saiu do quarto, ainda sem encaixar a peça. Mas certa de que agora poderá se completar.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

(fluidos)


Por Ana

Era uma mulher com viço
Carregava entre as pernas
um líquido que escorria
Não se intimidava
Apertava a mão contra a pélvis
Fechava os olhos
e sentia a si mesma por entre os dedos
Gostava.
Era quente desde que podia se recordar
Tinha o viço do sangue
do gozo
Quando a penetrava
pedia que se deixasse dentro dela
Deixava
Ela o retinha enquanto podia
depois era queda
Ajoelhava e queimava
escorria de si e em si
Caía e adormecia
Enquanto isso sua alma vagava na correnteza de fluidos  
que de tempos em tempos faziam-na  sentir-se
ainda mais mulher.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Raízes salientes


Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos 

Naquele dia ela andava por caminho trivial. Um dia sem mais nem menos, onde ela reverberava as intensidades de dias recentes. Dias vividos em emoções que se arrastavam por baixo da pele, rasgando o corpo em arrepios e sensações quentes.

Andava pelo cotidiano vazio de acontecimentos, para o almoço feijão com arroz que lhe mataria a fome do momento. As lembranças das intensidades falavam-lhe com o corpo, saindo de vez em quando em rompantes bruscos, que tomavam seu pensamento e extravasavam para lhe percorrer os pêlos. Pouco olhava o hoje, que se mostrava desinteressante e corriqueiro como um dia sem pertencer à memória. Seguia.

Foi quando, de repente, viu algo que lhe paralisou os passos. Lá estava ela! Uma grande árvore de raízes salientes, raízes imensas, que rompiam a terra com a força das profundezas. Raízes que se multiplicavam, que tomavam o chão e atropelavam o que estivesse diante delas. Raízes de forças ocultas, que se movimentavam rasteiras e alteravam a superfície em relevos. Que modificavam as paisagens planas do cerrado, em marcha que não se interrompe. Apenas se contempla, com a planta dos pés a tocar a vibração do que existe por baixo de.    

Contemplou. As suas pernas imobilizaram-se diante do semblante majestoso da árvore-deusa. Não conseguia ver seu fim nem seu começo. Ela era grande e silenciosa como a vida. Vinha do ventre aterrado, e seguia até onde pudesse encontrar espaço – ilimitada de formas e tamanhos. Crescia livre, sem moldes prontos, cada galho rompendo para um lado, cada folha caindo no seu momento. Pensou no seu setembro de profundezas. E sorriu ao sentir-se um pouco árvore de mistérios.

Tocou alguns pedaços marrons que lhe apareciam perto dos pés. Pedaços vivos de algo submerso, capaz de fincar toda a estrutura de copas verdes. Pedaços que se nutriam da terra, que sugavam e dissipavam vida, que se embrenhavam por onde ninguém mais podia ver. Mas que estavam ali, no entanto, mostrando ao mundo a saliência das entranhas. Fornecendo pistas dos caminhos escondidos aos olhos de visão.

Percebeu suas próprias raízes revirando-lhe o estômago. E soube que haveria de percorrê-las para chegar ao fim deste ano denso, que lhe obrigava a escavar a terra com os dedos, em busca dos próprios vestígios. Seguiu para o almoço não mais trivial. Saboreou a comida com gosto de alimento de raiz.

Sentiu suas vertigens costumeiras, cheias de desafios. Precisava enfrentar esse caminho de coisas não reveladas. Perseguir o buraco dos sintomas que a devastavam com impulso de vento. Seguir as pistas vistas para encontrar o que se escondia por entre vísceras e espaços ocultos. Entrar em harmonia com a sua força motriz.

Colocou a cabeça no chão de terra. Sim, ela era um pouco árvore. E um tanto de mistérios.
  

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Espinhas

por: Kali
Desenho Ana Vasconcellos

Era ela e seu bailar. Na sala vazia vinha e ia como quem não vai chegar. Estava no quarto vazio olhando o reflexo distorcido no espelho. Sentia-se bela com sua face alva, seus seios firmes, sua boca vermelha. Aproximava-se e uma pequena feridinha purulenta surgia em sua mente. Ela espremia como se pudesse colocar para fora todos os pensamentos infeccionados .Ouvia a voz de sua mãe a gritar:

- Você é gorda e feia. Ninguém vai gostar de você.

Ela se espremia até ver o sangue brotar em sua face, até sua obra de arte estar manchada pela feiúra que lhe ensinaram a vestir. A maquiagem cobria a ferida transformando-a na eterna atriz das novelas dos anos 80. Exagerada, dram[atica, descontextualizada e irreal.

Ela pintava da cor da pele a ferida escura com casca e pus que ela mesma criou. E chorava baixinho no canto do quarto lembrando do tempo que era bela. Todos os dias ela prometia não se ferir. Mas não conseguia. Era como se a voz se calasse apenas com as marchas funebres, manchas e ferimentos. É como se a dor só cessasse com a cena repetida. É como tudo só fizesse sentido se ela atuasse seguindo o sopro do ponto.

Em um ato único, um dia ela escutou uma outra voz, doce como uma canção de ninar. Melodia de menino feliz e brilhante que lhe soprava no ouvido as verdades que nunca ouvira.

Ela se sentiu bela e plena. Ela se olhou no espelho, viu as feridas e entrou em cena. De cara limpa, coração aperto, seio desnudo e corpo descoberto. Ela era Ela. Inteira em suas luzes e sombras. De que vale riscar a face da moeda? No cara e coroa encontrou o ponto de equilíbrio da moeda, que naquele bailar, rápido em translação, transformava-se em esferas, luzes e cometas. Na união das faces, encontrou o ponto em que não se é tudo ou nada. Apenas se é.

sábado, 2 de outubro de 2010

orgânica morte


por Ana

Em minha parte de ser orgânico
tenho um jazigo rubro de vísceras cintilantes
Retumbante em meu estômago gás carbônico
Em meus olhos batalha a morte relutante.

Por alguns instantes paro a respiração
O sangue lentamente desanda a latejar
Tento, tento - esquento - combustão.
Brado aos deuses do fim que o fim há de chegar.

E se por acaso em meu ventre descansa
Da guerra e da foice, demônio alado
Dilacero-me de lâminas afiadas
E desperto à noite com o filho abortado.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pequenas mortes

Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos




Naquele dia ela acordou permeada por uma velha sensação conhecida. Uma sensação estranha, que sempre a faz correr com impulso de menina para se esconder embaixo da cama. Uma sensação de tormenta, que sempre a faz fugir em disparada como quem foge do espanto escuro do mistério. A morte.

Novamente ela morria sem aviso. Sem inscrição prévia, sem entendimento dos seus motivos avassaladores. Desesperou-se ao sentir a morte invadir-lhe o corpo, dando sinais de mutações ligeiras. Sentia-se tonta, sentia-se fluida, sentia-se espalhada no ar ao redor da cama. O coração batia forte, a vista escurecia, e ela morria. Emitia sons de silêncio. De desvarios de finais incompletos.

Morria nela mesma. Morria um pouco por querer viver demais. Pensou em tudo que amava com a intensidade da despedida. E tudo ganhou cores ainda mais brilhantes. Agarrou-se nos lençóis desarrumados, como quem agarra a âncora do navio que não quer partir. Fincou-se na cama com os pés enrolados na coberta. Assustava-lhe pensar nos caminhos dos fins. Do transformar-se a perder-se de vista. Do deixar-se livre das amarras do ego.   

Tinha medo de deixar ir. E, quanto mais medo sentia, mais a morte rondava-lhe os olhos. Sim, era preciso deixar-se morrer. Tinha que aprender a gozar a morte, como quem se solta no gozo profundo da vida fecunda. Como quem se eleva em orgasmos que libertam o corpo. Elevou-se sozinha em prazer escondido. Tocou-se para experimentar a vida regenerada pela matéria morta. Morria.

Morria a morte que gerava vida em diferentes formas. Era preciso entregar-se ao desconhecido que abrigava nas células vivas. Ao desconhecido que era ela, e que a levava fatalmente ao fim de novos começos. A vida é cíclica? Pensou com curiosidade. Sentiu medo da resposta oca de voz racional. Sentiu medo por não saber quem era. Sabia apenas que a tontura circular a atravessava. E que ela morria no mesmo segundo em que inspirava profundamente o ar para dentro dos pulmões. 

Sim, a vida era morte. E a morte respirava o caminhar dos dias. O ego era uma ilusão que a confortava. Que a amortizava da dor pontuda de não pertencer ao conhecido. A dor bela do fluxo da vida. O ego era o companheiro no qual ela podia camuflar a falta de controle que tanto a desafiava.

Mas de novo vinha a morte - em novos tons e novas surpresas. E de novo sacudia-lhe as mãos agarradas ao pretenso controle de ser ela. Tremia, suava frio, pisava a vertigem do transmutar-se. Encolhia-se diante da perplexidade. Ela era nada. Era incógnita de vida e morte.

Suas pequenas mortes diárias.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pietá


por: Kali
desenho: Ana Vasconcellos

Era o tempo dos milagres, das curas, do reconhecimento. Poderia viver assim por toda eternidade, desfrutando do gosto doce de saber usar os cristais interiores. Esqueceu, porém, que a grande missão estava no aprendizado. Não era o topo da montanha que fazia o alpinista. O troféu é a escalada.

Foi capturada pela força negra das entranhas. Chegou o tempo das estacadas na mão, a espinhante coroa de questionamentos, dos chicotes no corpo. Chegou o tempo de sangrar um líquido vermelho e dolorido, para sentir-se encarnada.

Foi preciso morrer para adentrar nos infernos. Foi preciso doer para compreender a humanidade. E no mergulho cego no abismo, perder-se parece inevitável. Tamanha solidão dos dias sem luz, dos quadros sem cores, da vida sem sentido no labirinto de espelhos.

Ela procurava como um inseto desesperado pelo brilho artificial. Esqueceu de olhar para a luz que tremeluzia dentro de si. Com rosto colado no espelho, exibindo deformada figura forjada pelo calor da ofegante respiração, ela fechou os olhos e deixou despencar no chão seu grande corpo de guerreira.

Encolheu-se buscando o calor de si mesma e encontrou o vento glacial de seus pensamentos. Sentiu o gerar no seu ventre. Algo que pulsava em um ritmo alucinante. Viu o mundo girar. Sim, estava na hora de parir. Tirou forças de onde não tinha, abraçou o vaso, afundou sua pesada cabeça. Sentiu o cheiro de fezes. Seu estômago revirou e ela despejou para fora aquilo que não lhe pertencia. Fétido cheiro das entranhas doentes. Negro, com pedaços de alimentos impróprios, fatias de histórias não vividas, partes alheias.

Despencava no chão, encolhia-se, sentia o vento glacial e novamente mergulhava nos odores apodrecidos de si mesma. Ela pariu suas sombras mais obscuras e pensava estar sozinha.

Quando por fim derramou a última gota de suas negatividades, soltou-se no abismo pensando ser o fim. Esperou pela queda com os olhos apertados e sentiu o abraço pequeno e feminino de sua mãe. Abriu os olhos e permitiu-se morrer. Os olhos maternos não espelhavam dor, medo ou ressentimento. Era piedade que via. O amor incondicional que buscara por toda a vida. O olhar que lhe foi negado ao nascer, mas, que, por fim, lá estava estampado na partida.

Com as costelas expostas e massageadas, ela sentiu seu frágil coração. Frágil e forte, como ela mesmo o é. Doce e amarga, como ela mesmo se provou. Escura e clara, como ela mesma se descobriu.

Chegou o tempo de morrer no colo da mãe, com um sorriso leve de quem pode voltar para o pai. Na derradeira despedida, o amor pulsava, não mais para fora, agora para dentro, acarinhando as entranhas. Não mais tão estranhas agora.

E no toque de si mesma ela cindiu-se em luz e alcançou os céus.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

(um conto controvestido)


Por Ana

Certa vez contou-me o vestido a respeito de um corpo sobre o qual deslizava.
 Já havia habituado-se a seu odor de dias quentes e ao dançar inerente àquele andar sem  vento.
 Era um lilás algodoado, desprendido das próprias alças.
 Numa época em que nos seios, jaziam olhos da maldade(...)
 Nascera pano de roupa e rua, sem jamais fazer jus a uma vida que ousasse proclamar-se   mais nobre.
 Encontrara-se a certa altura esquecido entre usados e passados perdidos, mas aí então, desceu perene   sobre a pele daquela carne morna.
 Aquela carne de fogo...
 E ali tornou-se também pele.
 Pele de uma pele que era mulher.
 Sugava cada gota de suor das costas marcadas pela juventude recente.
 Sagraram laços para a eternidade.
 Duas peles.
 Um pano e uma mulher.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Abismos

Por Silvia Badim/Gaia
Imagem de Ana Vasconcellos


Lá estava ela, pairando sob o abismo.

Andava em volta de si mesma, olhando o imenso buraco aberto sob as crateras de sentir e de pensar. Abismo negro de profundidade não revelada. Rachava-se.

De um lado pisava o sentimento imenso, que sentia arrepiar-lhe as entranhas. Sentimento disforme, irradiador, que a devastava como a seca que comia o verde. Do outro lado, pisava a terra de seus esquemas racionais. Milhões de explicações teóricas sobre os sentires que lhe invadiam a alma, e escorregavam para todos aqueles que estavam ao seu redor. Conjunturas, quadros, rotas explicativas, sensatez. Sua mente fervilhava tentando encontrar racionalidades racionalizantes. Tentando amordaçar o sentir vivo que corroia certezas e traços que definira com tanto esmero.  

As suas estruturas pegaram fogo. E ela corria com baldes d água, atrapalhada pela pressa de preservar sua solidez. Quase desesperada diante das chamas, tentava salvar alguma coisa que permanecesse em pé. Esfregou os olhos, tentando enxergar o que restava sob o cinza chumbo da fumaça. Mas não reconhecia os vestígios sobreviventes. Estava permeada por olhos de abismo.  

Lá estava ela, um pé de cada lado, cindida sob o negro sem fundo. O fogo dilatava as crateras, aumentava seu diâmetro, esticando suas pernas ao limite. Pernas abertas por onde sangravam contradições. Sentia o limite dos paradoxos, a abertura em que vivia suas confusões mentais. Perdia o equilíbrio para as vertigens de se estar à beira de.

Quase rasgada, suas pernas doíam, imóveis em distância. Paralisadas, gélidas. Precisava doer. Alguma coisa precisava doer. Precisa sentir fisicamente o limite das pernas estiradas. A dor cortante de não conseguir fincar os dois pés no mesmo lado. Era tempo de revelar a dor escondida nos seus fragmentos entre abismos.

Quem era ela mesmo?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Conversa de Kali e Gaia

por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos

No início era o ruidoso fluir das veias. Um som em constante movimento. Ficou apertado, a expulsão, a força do fim da escuridão, o início da luz. Veio o verbo, os adjuntos adnominais, os olhares, o toque, o silêncio e a solidão. Fez-se o barro. Barro de estrelas cadentes. Anjos caídos em um mundo de fantasmas.

Foi-se o tempo das bolhas de sabão, dos sonhos, dos elefantes vermelhos, dos espíritos de asas. Chegou o tempo de escolher a forma para entrar, as algemas e bolas do pé,  tempos de dilacerar as partes para encolher-se a fim de representar um molde. Fujo, desinformo, fluidifico.
Olho no espelho. Sangrava. Pedaços vermelhos de mim caiam no vaso. Carmins, lindos, com cheiro de vida. Faço dos dilasceramentos das minhas entranhas meu batom, minha pintura de guerra, meu tratado de paz. E danço na sala vazia, me entrego e experimento sensações de estar desapegada de mim. Entro no fluxo do universo, no extase de ser EU.

Aceito o chamado e o destino de ser um portal de anjos. Sento na beira do rio e ouço as vozes das águas, o sussurro das árvores, o culto de encontro com a minha natureza feita dessa mesma essência. A entrega ao sagrado terreno em forma de nuvens, flores, animais, água, luz, terra, éter, vento, raios, trovões e tempestades. Tempo fechado, mar revirado, natureza brava. Apequena-nos diante da força maior. Destrói egos inflados. Como ser hipnotizada pelas nossas tempestades das estranhas entranhas.

Há algo, no entanto, que sempre permanece que mora dentro de nós. Barro das estrelas que balança com os ventos que sopram, queima nas febres da alma, giram nos redemoinhos de vento. Permanece lá, intacto, sagrado.

Piso no lodo do fundo do rio. Ele era eu de verdade. A lama entrando por entre os dedos, suportando toda a fluidez das minhas intensidades, se adaptando a pisada, fazendo a estranheza macia e gosmenta do caminhar. Mangues são fétidos por sua riqueza, lamas são ricas e nos lembram sujeira. Como tantas coisas que achamos serem sujas como o sangue lunar das entranhas. Aquela parte de nós que se sacrifica para o renascimento.

O sangue que nossos lábios derramam é a lama do mangue, sangue da terra. E por mais que tenhamos sido moldadas, amputadas, dilaceradas, chega a hora que a gente não sabe mais quem é. Achamos que somos as formas. Esquecemos que somos o barro. Até que a forma se vai. Dissolvemo-nos nas lágrimas. E viramos a lama que faz a caminhada macia, entrando entre os dedos sendo sangue da terra.

Tudo faz sentido afinal. Sentido de apenas ser. Sem formas e livres de amarras. A tocar o amor sem formas nem padrões, nem nada mais. Enquanto o mundo se toca para sentir, encontro o que toca o sentir. E fim.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

um conto.



Por Ana

Desde o começo sonhara com liberdade;
Costumava tropeçar sobre os próprios passos, posto que fossem sempre maiores que as pernas.
Era ainda uma menina;
Imaginara-se despertando sobre o colchão baixo, um chuveiro forte e boa comida na mesa.
Talvez fosse necessário, vez ou outra, trabalhar em algo que não lhe agradasse.
Sabia disso.
Pensava em si acompanhada de solidão, mas não se feria; eram uma e outra, velhas companheiras.
O pensamento era fácil enquanto não foi preciso sair do lugar.
Mudou-se de cidade;
uma. Duas. Três vezes.
Era como se o corpo fosse e a alma se perdesse.
E o corpo, amanheceu mulher.
Não havia mais os cabelos que fizeram reféns tantas mãos.
No espelho, um riso ao contrário.
Era a alma da menina virada ao avesso.