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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Homem das Sombras

Por Kali
Imagem de Ana Vasconcellos




Ela brincava pelo jardim. Subia em árvores de vestido, girava a saia na melodia inaudível. Ela era o universo em sua dança infantil. Bebia água e derramava sob o peito que se arrepiava pelo frio da ventania. E corria sentindo as folhas a esfregarem-se sobre seu corpo, as gotas de chuva a arrepiar a existência.

Ao longe um estranho desconhecido, atrás da sombra de uma árvore, devorava uma maçã e a inocência de menina, sugando sua  leveza para dentro de seu falo. Ele queria penetrar o corpo para  da alma roubar o perfume que ela exalava.

Quando os olhos se encontraram, percebeu-se desnuda. Correu para o quarto para procurar um vestido e com tanto medo das sombras trancafiou-se no armário. E lá dentro com as tintas de sua imaginação, pintou a floresta, as folhas, o tesão, sem reproduzir o estranho das sombras.

Em total escuridão, devorando uma maçã, ainda sim conseguia fazer a luz e por ela ver as sombras refletidas atrás da macieira. Sonhava com a cobra a dançar em suas intimidades e o dente do veneno a perfurar-lhe a carne. Às vezes acariciava-se desejando com desdém aquele obscuro sentimento que a atraia e repudiava com mesma força.

Um dia teve coragem. Abriu o armário e percebeu que não mais enxergava. Por não ver precisava experimentar todo mundo através dos outros sentidos. Cheirava, lambia e esfrega-se em todo caminho.

Até que sua língua provou o amargo gosto do desejo. Macio e suculento como um morango maduro. Colocou para dentro, um depois do outro, até sua carne explodir em pedaços. Seu sangue de tinta colorida com bruxas, fadas, gurus e anjos escorriam por todo lado.

Ela se fragmentara em todas as sombras e luzes que a habitava. Até que recuperou sua inocência perdida e nos olhos da sombra fundia-se em luz.

Alguém segurou no colo a menina. Acariciando sua face e cantando a doce melodia - Está tudo bem. Ela não enxergava e falava um dialeto estelar que pedia para ser devolvida ao mundo das tintas. Ela precisava bailar novamente e ver a beleza da vida.

Ele deitou-a na cama, acariciando seu corpo inteiro. Ela sentiu o cheiro do desejo. Com medo e movimento procurou o falo que a violaria. Encontrou uma flor macia que curou sua ferida.

Cheirou, lambeu esfregou-se até que as sombras se tatuaram em sua pele como obras de arte que chamamos de cicatrizes.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Fim do Mundo?

Por: Kali
Desenho de Ana Vasconcellos



Um terremoto. A terra superficialmente se racha. Enormes ondas de sentimentos carregam tudo que está por perto. Não importa se rezaram todos os dias, se meditaram todas as manhãs ou tiveram pensamentos elevados.

A enorme onda, as rachaduras engolem todas as coisas pelas quais se mata e morre. Vão os carros, os sonhos, as famílias. Vão crianças pequenas, que começaram a andar, as que nem nasceram e nunca nascerão.

De toda parte vem explicações sobre estes acontecimentos: dos mais céticos aos mais místicos busca-se desesperadamente uma resposta para preencher este vazio doído do peito. Falta ar. Estamos imersos a pensamentos rarefeitos.

Na verdade somos uma poeira cósmica e nossa existência se esvai no tiro de um bandido, no câncer que nos corrói, nos sonhos que apodrecem e ganham nome de síndromes ou na passagem acelerada pela existência.

Tudo se vai e vem sem grandes explicações, com a simplicidade de uma pedra que encontra outra porque estão no mesmo rio.Buscamos um sentido urgente para nossa vida embora saibamos que tudo continuará igual, melhor ou pior de acordo com a ilha de edição que transforma determinada ficção em uma verdade.

A vida nada é. Somos nós que damos nomes, adjetivos, advérbios, sentido, objetivo, missão a todas as coisas.Somos nós e apenas nós que odiamos ou amamos Deus. Ou que tentamos explicar nossa ojeriza por barata ou afinidade por cogumelos. Buscamos respostas enquanto nos perdemos em mil perguntas cretinas.

Ao certo somos insignificantes, pequenos, frágeis. Ao certo somos importantes, inesquecíveis para alguém. Tudo que vive tem um sentido que atribuímos. Diante da morte somos egoístas: amamos mais nossos filhos, nossas casas, nosso ter. Agradecemos por não estarmos lá, embora nossa cara de tristeza nada mais é que alívio. Tentamos ajudar como podemos talvez para transformar o egoísmo em compaixão.

A gente nem sabe o que dizer para uma mãe que acaba de perder seu filho. Amamos mais o nosso. Diante das catástrofes pensamos mais na vida porque sentimos o cheiro da morte. Parece não fazer mais tanto sentido odiar o transito. A nossa vida para ter e comprar perde a finalidade. Nem é esse blá blá blá de missão da alma. É o chamado para seguir um impulso insano do coração, permitir-se ser aquela pedra que se lança as correntezas do rio.

Diante das tragédias humanas percebemos o que realmente nos tem valor. Encontramos também sentimentos esquecidos, sonhos malucos. Quanto maior o tremor, maior a onda, o eixo da Terra muda. Com ele o sentido de cada ser que habita e não adormece na falsa idéia de felicidade também inverte.

Chegará o dia que a inversão acontecerá completamente. Encaixaremos na pelve de nossas incertezas, envoltos por águas quentes e paredes apertadas, de ponta cabeça, indefesos, movidos por um medo incrível do desconhecido. Passaremos por um caminho estreito, escuro com cheiro de intimidades.

Talvez vivamos neste exato momento que antecede o parto esperando as contrações para que possamos nascer em uma nova instancia de nós.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sobre o parido

Por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos

Crescia dentro de mim. Em cada respiração pensava um pouco nele. Os afazeres me desviavam para produzir outros semelhantes embora não brotassem das vísceras. Aquele era diferente. Era gestado, crescido lá mais no profundo de mim, temperado com genes de um lugar onírico.

Talvez tivesse um pai desconhecido. Talvez fosse do espírito santo. Era diferente. Crescia mesmo se eu não fizesse nada. Mexia por dentro sem minha vontade. Mudou meu eixo. Sentia-me plena, especial, desfrutando de breves momentos de completude em que se pode ser um sendo dois.

Até que começou a pesar. Comprimir as entranhas, incomodar a alma. Estava chegando a hora de parir. Eles gostam da madrugada fria, silenciosa, lunar. A Dança começa intensa, sem expectadores, medos ou projeções. Um túnel a me levar para outra instância da existência.

O mundo fragmenta-se em cacos despencando em um tubo de espelho. Tudo gira e a cada contração uma mandala caleidoscópica única se estampa. Até que velocidade dos abraços anímicos aumentam cindindo êxtase e dor naquele quarto penumbral. Nem o vento, nem uivos caninos distraem o dente que crava no pensamento.

Sinto um desejo de parar, é o sono que chega, o cansaço que bate. Impossível. Solto os pensamentos na força da gravidade psíquica que os dedos não mais acompanham. Pedaço por pedaço meus forjados com o infinito surgem em verbos, frases sem sentido, palavras ao acaso.

Encontro o ponto final. Um alívio existencial. Um êxtase doloroso. Estou revirada por dentro. É o fim! Está no mundo, tem meu sobrenome mas com vida própria.

Hora de respirar, circular pela casa. Hora de aquietar por dentro. Não resisto e antes de adormecer quero contemplá-lo mais uma vez antes que ganhe o mundo.

Choro copiosamente diante dele. As entranhas reviradas, despetaladas jazem no texto parido.

terça-feira, 1 de março de 2011

Sem Maquiagem

Por: Kali
Imagem: Ana Vasconcelos

Mal raiava o dia ela corria para frente do espelho para cobrir as imperfeições. A base rosada, o pó, o corretivo. Mil artefatos para esconder suas obscuridades cutâneas, purulências da alma.

Olhos tristonhos ganhavam a ousadia necessária para as luzes artificiais com marcados traços negros. Blush para conferir aquele ar saudável. A personagem estava pronta para atuar nos palcos da vida, retocando sua fantasia em cada pausa.

Diante do espelho mil pensamentos aniquilantes. Os olhos grandes e profundos a desvendarem cravos, defeitos inexistentes por toda parte. Na tentativa de calá-los uma perfumada cobertura epitelial a colorir uma espessa capa de gordura.

Numa manha qualquer esqueceu a maquiagem. Pendurou no armário dez quilos de sua roupa gordurosa. Agora enfrentaria o mundo sem sua armadura, com músculos a mostra, ossos expostos. Era ela em sua nudez de alma. Seus cabelos outrora lisos voltavam a enrolar em pensamentos curvos, orgânicos.

Ela se olhava no espelho e via, pela primeira vez, a si mesma. Sem as marcas que ela mesma causava. Sem procurar por pêlos, defeitos, rugas e cravos. Ela se via aberta, pétala por pétala, sendo ela mesma macia e espinhenta, bela e solitária como a Rosa que cresce no solo pedregoso.

Parou de experimentar-se nas extremidades. Nas dores intensas ou na felicidade exagerada. A vida seguia o curso das pequenezas. Da semente do dente de leão que entra pela fenda dos pensamentos e pousa na ponta do nariz da inspiração mostrando a confirmação da vida.

Ela não mais precisava agradar a platéia, nem se reconhecer na menina dos olhos alheios. Ela era ela. Tão ela, nem tão bela, nem tão feita. Era ela em suas belezas e chatices, em sua completa autenticidade. Era ela no palavrão e no mantra, e, também nas onomatopéias.

Mal raiava o dia e ela corria para vida. Corria e era feliz com seu cabelo despenteado, suas roupas sem marca, seu tênis sujo de lama. A bochecha rosada pelo calor da corrida. O pó do asfalto, a luz transpondo a densa neblina, o frio de fora a transformar-se em orvalho ao encontrar o calor de dentro.

Corria ao som da música ambiente, dançando e regendo as flores, montanhas e vento. Estava em si, sem desvios de rota. Estava em si, em toda parte, mesmo estando na multidão, Era só, pó das estrelas.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Adeus, Mãe

Por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos

Eu queria que você me dissesse que tudo vai ficar bem, que vou poder experimentar novamente aquela sensação de entrega e acolhimento que algumas vezes vivi nos seus braços. Eu queria saber se você realmente foi capaz de me amar ou se mais uma vez lancei meu corpo para braços que me deixaram desmantelar.

As vezes eu sou pesada, talvez porque invista tanto na necessidade da leveza. Talvez porque eu queira ser tanto o ideal que eu tracei para mim que ele sempre parece estar a frente e longe de mim. Eu o persigo enquanto ele foge e me sinto só.

Eu queria apenas o silencio. Eu queria apenas rir com você e de alguma forma fazer sentido na sua vida. Mais uma vez me sinto abandonada neste mundo tendo que me virar sozinha.

Eu não me viro tão bem como as pessoas imaginam, você sabe. Eu vivo tropeçando nas quinas, errando as esquinas. Eu me sinto perdida a maioria das vezes. Talvez as coisas façam sentido nas palavras.

Eu queria apenas que você me embalasse e que me cantasse canções de ninar para fazer dormir esta parte impulsiva de mim. Eu não consegui chorar com a despedida, mas eu estava chorando enquanto dizia que estava tudo bem.

Não está tudo bem. Eu me sinto sozinha. Solidão é quando a gente não sabe se gosta muito da gente. Sabe, eu não sei se gosto tanto assim de ser eu mesma.

Eu escolhi isso. Eu sei. Fui eu quem pegou as roupas, arrumou a mala e esperou você chegar para bater a porta e dizer adeus. Eu queria que você dissesse que eu sou importante e me pedisse para ficar. Você me disse adeus e agora eu não sei para onde ir e nem em que colo chorar .Estou parada na porta da casa que já foi minha, me sentindo lançada no mundo. O mundo que sempre desejei e agora me amedronta.

Desculpe pela minha falta de coerência. Eu só sei ser poesia. Daquelas que brotam entre lágrimas e pulsos de vida.

Não me leve tão a sério. Eu coloco a lupa nos sentimentos porque parece que quando estão maiores fazem um sentido profético.

Eu parti, estou no mundo. Vou sentir saudades. Sei que em breve seremos apenas lembranças passageiras. Por hora ainda dói a partida. Ela tem cheiro de falha.

Você me avisou das dificuldades. Achei que eu ia dar conta. Nunca imaginei que o quarto que entraria seria tão alheio a minha razão. Ela simplesmente não opera lá.

Agora eu vou seguir, molhando-me na chuva e entre lágrimas e sóis, e deliciar me com a efemeridade do arco Iris.

Adeus, Mãe. Ainda te encontro dentro de mim.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pinóquio

por: Kali
Desenho: Ana

Estava no céu celestial perfeito, desembrulhando os papéis azuis das maças. Decidiu nascer quando viu refletido no espelho de si mesma o amor entre dois jovens. Talvez ela tenha chegado depois do gozo urgente na escada do prédio. Escura, sombria, misteriosa entrada naquelas entranhas adolescentes.

Nada sabe sobre o tempo que ficou guardada na concha, esperando a hora da abertura para a revelação da pérola. Apenas que causava em sua mãe uma vontade de pipoca e chiclete. No céu só havia maças.

Seu segundo desembarque foi igualmente sem poesia. Cortaram o ventre da pequena para tirar na marra aquela que tentava nascer. Em viagens internas adormecida ela ainda sonhava com um pequeno orifício que tentava se encaixar e uma sensação de queda abrupta por ter sido retirada pelos pés.

O frio da madrugada que lembra a primeira separação. Ela tentou segurar na toalha da fria balança que revelava o peso, de início e para sempre de um corpo robusto. Quase quatro quilos de medo e choro. Onde estava o amor? Onde estavam os braços e seios que um dia ela imaginou? Agulhas, viradas abruptas, colírios cegantes.

Onde estava a poesia que vira lá de cima? Ela, depois de muito tempo, encontrou os seios. Mamava com volupia até tirar sangue da menina, que chorava e persistia. Ele regugitava e lhe diziam que estava doente. Deram-lhe um veneno que quase tirou-lhe a vida. O menino correu com ela e não dexou. Tantas vezes ela desejou profundamente ter deixado o placo antes que pudesse ficar em pé. ela sabia que não era essa sua história.

Durou tão pouco tempo a era do peito e colo. Antes de meio ano já estava entregue a comida deste mundo, que devorava com vontade na tentativa de que o estômago cheio preenchesse o coração que faltava um pedaço.

Antes que se desse conta, um outro ser ocupava seu berço, seus seios, os braços. Deixada na estrada descobriu que era um anjo e que anjos e humanos não tem uma relação plena.

Adentrou no mundo tecnológico das máquinas na tentativa de encontrar a fada madrinha. Ela sabia o que queria. Queria ser uma menina de verdade para que um dia a mãe pudesse lhe amar, de início e para sempre. Mergulhou profundamente em uma alagada cidade de memórias antigas. Diante da fada, congelou porque as águas tornaram frias demais com o passar dos anos e das eras glaciais.

Até que o sol veio a derreter e fazer chorar as águas internas. Saiu e encontrou um espelho. Aquele mesmo que vira antes de chegar enquanto saboreava sua maça. Diante da menina dos olhos da fada ela se viu menina de verdade. Olhou mais fundo e viu brilhantes sorridentes olhos cor de romã a lhe fitarem em gratidão. Viu seus próprios olhos a olharem na menina dos olhos da menina mãe.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Baile Kali


por: Kali
desenho: Ana

Baile Kali, apenas rodopie sobre mim. Pode aposentar os sapatos de salto, as sapatilhas que esmagam seus dedos finos ou as botas militares que te pesam as pernas. Apenas baile sobre mim. Deixe que eu te penetre pelos dedos e acaricie suas raízes.

Baile, Kali, entre em mim, com seus pés ligeiros para que alcance os céus. E quando cansar, deite sobre mim. Quero enbalar sua menina ferida para que nunca se esqueças da melodae. Entregue-se aos meus braços quentes, deixe que eu lamba as feridas com minhas lágrimas e as segue com meu vento. Quero iluminá-la com o dourado sol do meu cabelo.

Pare de subir em altas montanhas e despecar para descobrir que não tem asas com a face sangrenta no chão. Nâo se debata mais, Kali. Apenas baile. Baile até que cansar, baile até morrer e assim abrirei meus braços para te receber. Mas baile, Kali. Apenas baile sobre mim.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Conto sem ponto


Por: Kali
Imagem: Ana

Ela seguiu o cheiro de carne no ar. E do sangue que pingava no chão, com seus pés descalços começou a pintar o jardim de sua vida. Desenhou cenas tecidas com areias de uma duna efêmera.

Parou  à beira do abismo e sentiu a deliciosa vontade de saltar. Chegara a hora breve de partir? Ela só queria saborear o vento, sentir seu corpo se entregar ao vazio, sem pensar se a queda poderá causar-lhe ferimentos profundos.

Mas o momento que antecede a vontade de saltar a inebria fazendo-a esquecer tudo o que pintou até ali chegar.

Seduzida pelo cheiro do vento produzido por uma nuca que nem me lembrava mais existir, mas que de súbito apareceu, por obra do destino, a causar-lhe um mal/bem inexplicável, daqueles que fazem a gente imaginar que somos pássaros.

Por cima da neblina densa que impede de saber o tamanho da queda, ela acariciou as nuvens, passando cada molécula de água por todo seu corpo, deixando escorrer uma gota pelas por suas intimidades.
Gota que penetra, fecunda poemas esquecidos na biblioteca erótica. O quarto fora aberto e Kali saiu nua seduzindo as tropas, fazendo esquecer as guerras.Girando em volta da fogueira, em uma dança profana e onírica desenhou traços da sua vida, com sangue, pele, cheiro e instinto, desencontrando o ponto final para este conto. E ponto.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Musica para Kali

Por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos

Cansou-se de dividir-se pelo mundo. Buscou em cada um, o pedaço de si na tentativa de remontar-se. Visitou fantasmas do umbral, velhas almas que só habitavam cartas amareladas, memórias antigas em letras de amor.

Faltava-lhe ainda uma parte sem nome ou memória que ela não conseguia acessar. Uma peça feita de desejos, impulsos, sonhos e pesadelos. Um fragmento do tempo dos choros e peitos. Um pedaço sem palavras ou mente. Um não sei que apenas de corpo e sentimento.

Adentrou no labirinto escuro de suas entranhas  tocadas pela nova mãe. Passou pela mente e foi além, no lugar onde palavras não servem, refúgio de peixes cegos e pássaros surdos. Andou temerosa e escutou uma valsa antiga feita para Elise, mas que dizia tanto sobre ela. Ouviu a música e começou a entregar-se ao fluxo das lágrimas que despencavam de seus olhos míopes. E no mar de sentimentos sem nomes viu sua mãe sentada ao piano, confusa e perdida, manifestando sua infantilidade do terceiro setênio em forma de melodia. Uma música que exprimia seu medo de nascer mãe. Doce, profunda, leve e triste, como ela o é.

Em cada nota daquela cena, entendeu um pouco de si. Descobriu o quanto aquela melodia regia com notas e dança dos dedos o ritmo da sua vida. Vestiu-se de bailarina de cabaré entregou-se de braços abertos ao chão duro que feria seu coração. Sentiu medo de amar novamente aquela mãe pequena, de corpo de costelas. Sentiu o medo de não saber dançar a melodia. Face a face com sua tristeza, dançou com ela, sem ritmo, sem compasso, de rostos colados em união impossível.

No pulsar do coração em uníssono encontrou a percussão de sua música. Ela viu ao longe, entre lágrimas, sangue e escuridão, a peça que lhe faltava.

No corpo colado ao seu, nas mãos que afagavam os cabelos com cachos, ela parou de debater-se para permitir-se apaziguar. Sentou com medo da dor de suas feridas velhas e purulentas. Deixou-se tocar a face sem rosnar. As mãos maternas por cima das cascas que ela mesma causou, faziam reluzir a consciência perdida.

Ela saiu do quarto, ainda sem encaixar a peça. Mas certa de que agora poderá se completar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Espinhas

por: Kali
Desenho Ana Vasconcellos

Era ela e seu bailar. Na sala vazia vinha e ia como quem não vai chegar. Estava no quarto vazio olhando o reflexo distorcido no espelho. Sentia-se bela com sua face alva, seus seios firmes, sua boca vermelha. Aproximava-se e uma pequena feridinha purulenta surgia em sua mente. Ela espremia como se pudesse colocar para fora todos os pensamentos infeccionados .Ouvia a voz de sua mãe a gritar:

- Você é gorda e feia. Ninguém vai gostar de você.

Ela se espremia até ver o sangue brotar em sua face, até sua obra de arte estar manchada pela feiúra que lhe ensinaram a vestir. A maquiagem cobria a ferida transformando-a na eterna atriz das novelas dos anos 80. Exagerada, dram[atica, descontextualizada e irreal.

Ela pintava da cor da pele a ferida escura com casca e pus que ela mesma criou. E chorava baixinho no canto do quarto lembrando do tempo que era bela. Todos os dias ela prometia não se ferir. Mas não conseguia. Era como se a voz se calasse apenas com as marchas funebres, manchas e ferimentos. É como se a dor só cessasse com a cena repetida. É como tudo só fizesse sentido se ela atuasse seguindo o sopro do ponto.

Em um ato único, um dia ela escutou uma outra voz, doce como uma canção de ninar. Melodia de menino feliz e brilhante que lhe soprava no ouvido as verdades que nunca ouvira.

Ela se sentiu bela e plena. Ela se olhou no espelho, viu as feridas e entrou em cena. De cara limpa, coração aperto, seio desnudo e corpo descoberto. Ela era Ela. Inteira em suas luzes e sombras. De que vale riscar a face da moeda? No cara e coroa encontrou o ponto de equilíbrio da moeda, que naquele bailar, rápido em translação, transformava-se em esferas, luzes e cometas. Na união das faces, encontrou o ponto em que não se é tudo ou nada. Apenas se é.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Conversa de Kali e Gaia

por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos

No início era o ruidoso fluir das veias. Um som em constante movimento. Ficou apertado, a expulsão, a força do fim da escuridão, o início da luz. Veio o verbo, os adjuntos adnominais, os olhares, o toque, o silêncio e a solidão. Fez-se o barro. Barro de estrelas cadentes. Anjos caídos em um mundo de fantasmas.

Foi-se o tempo das bolhas de sabão, dos sonhos, dos elefantes vermelhos, dos espíritos de asas. Chegou o tempo de escolher a forma para entrar, as algemas e bolas do pé,  tempos de dilacerar as partes para encolher-se a fim de representar um molde. Fujo, desinformo, fluidifico.
Olho no espelho. Sangrava. Pedaços vermelhos de mim caiam no vaso. Carmins, lindos, com cheiro de vida. Faço dos dilasceramentos das minhas entranhas meu batom, minha pintura de guerra, meu tratado de paz. E danço na sala vazia, me entrego e experimento sensações de estar desapegada de mim. Entro no fluxo do universo, no extase de ser EU.

Aceito o chamado e o destino de ser um portal de anjos. Sento na beira do rio e ouço as vozes das águas, o sussurro das árvores, o culto de encontro com a minha natureza feita dessa mesma essência. A entrega ao sagrado terreno em forma de nuvens, flores, animais, água, luz, terra, éter, vento, raios, trovões e tempestades. Tempo fechado, mar revirado, natureza brava. Apequena-nos diante da força maior. Destrói egos inflados. Como ser hipnotizada pelas nossas tempestades das estranhas entranhas.

Há algo, no entanto, que sempre permanece que mora dentro de nós. Barro das estrelas que balança com os ventos que sopram, queima nas febres da alma, giram nos redemoinhos de vento. Permanece lá, intacto, sagrado.

Piso no lodo do fundo do rio. Ele era eu de verdade. A lama entrando por entre os dedos, suportando toda a fluidez das minhas intensidades, se adaptando a pisada, fazendo a estranheza macia e gosmenta do caminhar. Mangues são fétidos por sua riqueza, lamas são ricas e nos lembram sujeira. Como tantas coisas que achamos serem sujas como o sangue lunar das entranhas. Aquela parte de nós que se sacrifica para o renascimento.

O sangue que nossos lábios derramam é a lama do mangue, sangue da terra. E por mais que tenhamos sido moldadas, amputadas, dilaceradas, chega a hora que a gente não sabe mais quem é. Achamos que somos as formas. Esquecemos que somos o barro. Até que a forma se vai. Dissolvemo-nos nas lágrimas. E viramos a lama que faz a caminhada macia, entrando entre os dedos sendo sangue da terra.

Tudo faz sentido afinal. Sentido de apenas ser. Sem formas e livres de amarras. A tocar o amor sem formas nem padrões, nem nada mais. Enquanto o mundo se toca para sentir, encontro o que toca o sentir. E fim.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Soul

por Kali
Desenho de Ana Vasconcellos 


Eu sei, estou sumida. Perdi-me no pulso das minhas entranhas. Explodi em mil coágulos sanguinolentos, negros, putrefatos. Nasci feto morto, me fiz mãe de seios sem filho para amamentar.

Escondi-me na solidão dos dias para não expor minha ferida que pulsa no compasso da culpa, por não ser a vagina que pari, a força de vida que traz a luz. E ao amparar aquela que se desfacela, eu me parto em mil pedaços.

Sou como um vitral caleidoscópico espalhado no chão. Espeto e sangro quem por aqui caminha. Entro em carnes e latejo como um espinho em um pequeno pé de menino.

Pulso, com a força de quem atua sem filtros, tentando chamar atenção da mãe que me vira as costas. Choro, sozinha, sentindo o lampejo da dor da orelha puxada, que faz o coração sangrar na dor de ser desprezado.
E quando ela me nega o amor, eu desabo. E no seu colo pequeno, me encontro em meu espaço. A mãe que não me ama, me vê, como soul. Um pouco grande. Um pouco pequena. Precisando de colo e alento, num silêncio de quem ouve o que sempre quis ouvir. De saber que estou cuidada, mesmo quando quero me esconder. Que o amor as vezes é espinho e sangue. Outras abraços. E tudo está certo.
Assim vou juntando os cacos e girando o caleidoscópio, buscando a luz que sempre brilhou, para que eu me veja, como soul.

sábado, 28 de agosto de 2010

Habitante do Quarto Misterioso


 
Por Kali
Desenho de Ana Vasconcellos

Faz tempo, muito tempo que a aprisionei nos labirintos da minha psique. Ela sempre fora demasiadamente descontrolada com sua boca sedenta e seu cheiro de sexo. Prendi sim, tinha medo. Um medo de me prender, de ser conduzida por Kali nas armadilhas do imponderável. Ele gritava, gemia. Por vezes fui até seu pequeno quarto pedir para que me cantasse canções para eu me inspirar. Mas sua voz, doçura e força me seduziam a tal ponto que eu sentia vontade de soltá-la para ver o que ia dar. Mas tinha medo. Um medo de que ela me matasse, comesse minha carne racional e eu vivesse em seu mundo surreal.


Algumas vezes entrei no quarto com ela, tomando todo cuidado para que não fugisse ou pudesse cometer alguma atrocidade com minha vida controlada. Às vezes ela era uma menina mimada que fazia birra e dava vontade de dar os seios que ela nunca bebeu para que pudesse sentir o amor que lhe faltava.

Noutras era tão sedutora com suas formas avolumadas, seus gestos sem pudor que despertava vontade de consumi-la em cada pequeno detalhe celular.

Mas sempre, Kali, causara-me medo. Foi um dia, há muito tempo que eu a libertei. Sem perceber peguei sua roupa e vesti e ela me possuiu. Fechei-me no banheiro com medo daquilo que eu via: eu era mulher. Eu era ela, com aquela meia arrastão, as pernas firmes e grossas, o penacho de puta francesa na cabeça. Eu era ela e nunca percebi. Escondia-me em ações e vestimentas infantis. Mas eu era ela, indubitavelmente ela.

Lá fora alguém gritava:

- Vem, só falta você.

Mas eu me procurava naquela fantasia e não me encontrava. Quando entrei sendo ela naquela sala, que tantas vezes me escondi, todos me olharam como se finalmente eu fosse eu. Era irresistível não perceber a fêmea que eu tentava aprisionar.

Fui convidada a ir a frente e rebolar. Mostrar minhas curvas. Senti medo de soltá-la daquela forma. O eu faria com seu desejo de devorar almas e carnes humanas? O que faria com sua fúria de ter sido aprisionada por tantas décadas?

E antes que pudesse declinar a ordem, ela estava lá, rebolando para lua, com suas formas femininas insanas. E ela delirava ao ver o desejo pulsante nos olhos de homens e mulheres. Ela rebolava no silêncio profano. Ela se esfregava em si mesma, se tocando, pela primeira vez, sem controle, sem razão.