domingo, 17 de outubro de 2010
salto.
Por Ana
Se minh´alma esvair-se sob águas revoltas
Como no escuro, estrela evanescente
Em alvas teias orgânicas me enovelo
Sou um quarto de lua crescente.
Não há espaço
a linha do horizonte não alcança o crepúsculo
Do corpo em brasa sou febre
Da areia que escalda, molusco.
Então subo ao alto da construção
Vomito minha cólera aos deuses do vento
Atiro ao vento minha vida, em vão.
Na calçada, poça de sangue espessa
os braços, imóveis em necrose
e no meio da rua, um pedaço de cabeça.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Flor estranha
Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos
Havia chegado a primavera.
As primeiras chuvas lavaram a terra com a força das águas represadas. Águas esperadas durante tantos meses, ansiadas no tempo seco que a queimara em contradições. Havia chegado o momento de respirar o alento da umidade. O alívio do líquido gelado sob a cabeça quente. Respirou.
A terra perfumada pelas águas desabrochava em desconhecidas flores no jardim. Era tempo de flor. Tempo de suavizar a aspereza, de contemplar a beleza ímpar do que nasce da terra que atravessou as rachaduras do sol.
Ela havia chorado. Havia enfrentando algumas das suas securas de outros tempos. Ousou ser ela, despida de seus artifícios de fuga. Ela era flor estranha. Genuinamente cultivada por medos e desacertos de intimidade. Flor que cresceu em meio a outros elementos, invadida por diferentes feições que faziam dela o que ela era hoje.
Enfrentava o espelho, em pêlos nus. O hoje era um velho conhecido, escondido embaixo de diferentes panos que se acoplaram aos seus quadris. Que camuflaram um pouco do que ela, desajeitadamente, não conseguia ser. Mas ela era.
Estava no seu exílio. Tocando a sua profunda e necessária solidão. Começou a desbravar aquilo que doía, sem se esconder nas relações a habitavam como casa cheia. O hoje era um novo ciclo, que pairava sob o vazio de quartos e corredores. Era difícil enfrentar a mirada solitária da própria face. O silêncio de ser sozinha. De ser aquilo que se é.
Doía. Mas doer libertava. Inspirava coragem para seguir adiante, semeando novas sementes a serem brotadas em diferentes cores. Cores mais suas. Mais cheias de vida vinda do útero que descamava as suas esquisitices de ser mulher. Sentia o cheiro da chuva. Da vida que precisava ser dissipada em céu aberto, e ganhar o mundo sem amarras.
Ela lambeu a chuva de pingos grossos. As poças de lama ganharam volume, e o intenso marrom abraçava seus pés descalços. Inundou-se de terra molhada. Terra fértil, capaz de fecundar as sementes de novos tempos. Tempos cíclicos de novos velhos eus.
Sentiu a terra penetrando-lhe os orifícios. Sua textura densa invadia-lhe os espaços vazios. Escorregava pelos canais abertos e perseguia seu ventre. Terra quente que lhe corria com a força das entranhas, sem pedir licença. Com a força da vida que pulsava e pedia vida-vivida.
O movimento era de intenso feminino. Ela sentiu prazer. Um prazer doce e próspero, capaz de elevá-la a outros níveis de existência. Uma existência sua, compartilhada com a terra que fincava seus pés no chão. Com o ar que lhe acariciava o cabelo. Com tudo que sentia rondar-lhe sem saber dar nome.
Sentiu-se mulher feita de terra. E seguiu desabrochando como flor estranha.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Musica para Kali
Por: Kali
Desenho: Ana Vasconcellos
Cansou-se de dividir-se pelo mundo. Buscou em cada um, o pedaço de si na tentativa de remontar-se. Visitou fantasmas do umbral, velhas almas que só habitavam cartas amareladas, memórias antigas em letras de amor.
Faltava-lhe ainda uma parte sem nome ou memória que ela não conseguia acessar. Uma peça feita de desejos, impulsos, sonhos e pesadelos. Um fragmento do tempo dos choros e peitos. Um pedaço sem palavras ou mente. Um não sei que apenas de corpo e sentimento.
Adentrou no labirinto escuro de suas entranhas tocadas pela nova mãe. Passou pela mente e foi além, no lugar onde palavras não servem, refúgio de peixes cegos e pássaros surdos. Andou temerosa e escutou uma valsa antiga feita para Elise, mas que dizia tanto sobre ela. Ouviu a música e começou a entregar-se ao fluxo das lágrimas que despencavam de seus olhos míopes. E no mar de sentimentos sem nomes viu sua mãe sentada ao piano, confusa e perdida, manifestando sua infantilidade do terceiro setênio em forma de melodia. Uma música que exprimia seu medo de nascer mãe. Doce, profunda, leve e triste, como ela o é.
Em cada nota daquela cena, entendeu um pouco de si. Descobriu o quanto aquela melodia regia com notas e dança dos dedos o ritmo da sua vida. Vestiu-se de bailarina de cabaré entregou-se de braços abertos ao chão duro que feria seu coração. Sentiu medo de amar novamente aquela mãe pequena, de corpo de costelas. Sentiu o medo de não saber dançar a melodia. Face a face com sua tristeza, dançou com ela, sem ritmo, sem compasso, de rostos colados em união impossível.
No pulsar do coração em uníssono encontrou a percussão de sua música. Ela viu ao longe, entre lágrimas, sangue e escuridão, a peça que lhe faltava.
No corpo colado ao seu, nas mãos que afagavam os cabelos com cachos, ela parou de debater-se para permitir-se apaziguar. Sentou com medo da dor de suas feridas velhas e purulentas. Deixou-se tocar a face sem rosnar. As mãos maternas por cima das cascas que ela mesma causou, faziam reluzir a consciência perdida.
Ela saiu do quarto, ainda sem encaixar a peça. Mas certa de que agora poderá se completar.
Desenho: Ana Vasconcellos
Cansou-se de dividir-se pelo mundo. Buscou em cada um, o pedaço de si na tentativa de remontar-se. Visitou fantasmas do umbral, velhas almas que só habitavam cartas amareladas, memórias antigas em letras de amor.
Faltava-lhe ainda uma parte sem nome ou memória que ela não conseguia acessar. Uma peça feita de desejos, impulsos, sonhos e pesadelos. Um fragmento do tempo dos choros e peitos. Um pedaço sem palavras ou mente. Um não sei que apenas de corpo e sentimento.
Adentrou no labirinto escuro de suas entranhas tocadas pela nova mãe. Passou pela mente e foi além, no lugar onde palavras não servem, refúgio de peixes cegos e pássaros surdos. Andou temerosa e escutou uma valsa antiga feita para Elise, mas que dizia tanto sobre ela. Ouviu a música e começou a entregar-se ao fluxo das lágrimas que despencavam de seus olhos míopes. E no mar de sentimentos sem nomes viu sua mãe sentada ao piano, confusa e perdida, manifestando sua infantilidade do terceiro setênio em forma de melodia. Uma música que exprimia seu medo de nascer mãe. Doce, profunda, leve e triste, como ela o é.
Em cada nota daquela cena, entendeu um pouco de si. Descobriu o quanto aquela melodia regia com notas e dança dos dedos o ritmo da sua vida. Vestiu-se de bailarina de cabaré entregou-se de braços abertos ao chão duro que feria seu coração. Sentiu medo de amar novamente aquela mãe pequena, de corpo de costelas. Sentiu o medo de não saber dançar a melodia. Face a face com sua tristeza, dançou com ela, sem ritmo, sem compasso, de rostos colados em união impossível.
No pulsar do coração em uníssono encontrou a percussão de sua música. Ela viu ao longe, entre lágrimas, sangue e escuridão, a peça que lhe faltava.
No corpo colado ao seu, nas mãos que afagavam os cabelos com cachos, ela parou de debater-se para permitir-se apaziguar. Sentou com medo da dor de suas feridas velhas e purulentas. Deixou-se tocar a face sem rosnar. As mãos maternas por cima das cascas que ela mesma causou, faziam reluzir a consciência perdida.
Ela saiu do quarto, ainda sem encaixar a peça. Mas certa de que agora poderá se completar.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
(fluidos)
Por Ana
Era uma mulher com viço
Carregava entre as pernas
um líquido que escorria
Não se intimidava
Apertava a mão contra a pélvis
Fechava os olhos
e sentia a si mesma por entre os dedos
Gostava.
Era quente desde que podia se recordar
Tinha o viço do sangue
do gozo
Quando a penetrava
pedia que se deixasse dentro dela
Deixava
Ela o retinha enquanto podia
depois era queda
Ajoelhava e queimava
escorria de si e em si
Caía e adormecia
Enquanto isso sua alma vagava na correnteza de fluidos
que de tempos em tempos faziam-na sentir-se
ainda mais mulher.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Raízes salientes
Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos
Naquele dia ela andava por caminho trivial. Um dia sem mais nem menos, onde ela reverberava as intensidades de dias recentes. Dias vividos em emoções que se arrastavam por baixo da pele, rasgando o corpo em arrepios e sensações quentes.
Andava pelo cotidiano vazio de acontecimentos, para o almoço feijão com arroz que lhe mataria a fome do momento. As lembranças das intensidades falavam-lhe com o corpo, saindo de vez em quando em rompantes bruscos, que tomavam seu pensamento e extravasavam para lhe percorrer os pêlos. Pouco olhava o hoje, que se mostrava desinteressante e corriqueiro como um dia sem pertencer à memória. Seguia.
Foi quando, de repente, viu algo que lhe paralisou os passos. Lá estava ela! Uma grande árvore de raízes salientes, raízes imensas, que rompiam a terra com a força das profundezas. Raízes que se multiplicavam, que tomavam o chão e atropelavam o que estivesse diante delas. Raízes de forças ocultas, que se movimentavam rasteiras e alteravam a superfície em relevos. Que modificavam as paisagens planas do cerrado, em marcha que não se interrompe. Apenas se contempla, com a planta dos pés a tocar a vibração do que existe por baixo de.
Contemplou. As suas pernas imobilizaram-se diante do semblante majestoso da árvore-deusa. Não conseguia ver seu fim nem seu começo. Ela era grande e silenciosa como a vida. Vinha do ventre aterrado, e seguia até onde pudesse encontrar espaço – ilimitada de formas e tamanhos. Crescia livre, sem moldes prontos, cada galho rompendo para um lado, cada folha caindo no seu momento. Pensou no seu setembro de profundezas. E sorriu ao sentir-se um pouco árvore de mistérios.
Tocou alguns pedaços marrons que lhe apareciam perto dos pés. Pedaços vivos de algo submerso, capaz de fincar toda a estrutura de copas verdes. Pedaços que se nutriam da terra, que sugavam e dissipavam vida, que se embrenhavam por onde ninguém mais podia ver. Mas que estavam ali, no entanto, mostrando ao mundo a saliência das entranhas. Fornecendo pistas dos caminhos escondidos aos olhos de visão.
Percebeu suas próprias raízes revirando-lhe o estômago. E soube que haveria de percorrê-las para chegar ao fim deste ano denso, que lhe obrigava a escavar a terra com os dedos, em busca dos próprios vestígios. Seguiu para o almoço não mais trivial. Saboreou a comida com gosto de alimento de raiz.
Sentiu suas vertigens costumeiras, cheias de desafios. Precisava enfrentar esse caminho de coisas não reveladas. Perseguir o buraco dos sintomas que a devastavam com impulso de vento. Seguir as pistas vistas para encontrar o que se escondia por entre vísceras e espaços ocultos. Entrar em harmonia com a sua força motriz.
Colocou a cabeça no chão de terra. Sim, ela era um pouco árvore. E um tanto de mistérios.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Espinhas
por: Kali
Desenho Ana Vasconcellos
Era ela e seu bailar. Na sala vazia vinha e ia como quem não vai chegar. Estava no quarto vazio olhando o reflexo distorcido no espelho. Sentia-se bela com sua face alva, seus seios firmes, sua boca vermelha. Aproximava-se e uma pequena feridinha purulenta surgia em sua mente. Ela espremia como se pudesse colocar para fora todos os pensamentos infeccionados .Ouvia a voz de sua mãe a gritar:
- Você é gorda e feia. Ninguém vai gostar de você.
Ela se espremia até ver o sangue brotar em sua face, até sua obra de arte estar manchada pela feiúra que lhe ensinaram a vestir. A maquiagem cobria a ferida transformando-a na eterna atriz das novelas dos anos 80. Exagerada, dram[atica, descontextualizada e irreal.
Ela pintava da cor da pele a ferida escura com casca e pus que ela mesma criou. E chorava baixinho no canto do quarto lembrando do tempo que era bela. Todos os dias ela prometia não se ferir. Mas não conseguia. Era como se a voz se calasse apenas com as marchas funebres, manchas e ferimentos. É como se a dor só cessasse com a cena repetida. É como tudo só fizesse sentido se ela atuasse seguindo o sopro do ponto.
Em um ato único, um dia ela escutou uma outra voz, doce como uma canção de ninar. Melodia de menino feliz e brilhante que lhe soprava no ouvido as verdades que nunca ouvira.
Ela se sentiu bela e plena. Ela se olhou no espelho, viu as feridas e entrou em cena. De cara limpa, coração aperto, seio desnudo e corpo descoberto. Ela era Ela. Inteira em suas luzes e sombras. De que vale riscar a face da moeda? No cara e coroa encontrou o ponto de equilíbrio da moeda, que naquele bailar, rápido em translação, transformava-se em esferas, luzes e cometas. Na união das faces, encontrou o ponto em que não se é tudo ou nada. Apenas se é.
Desenho Ana Vasconcellos
Era ela e seu bailar. Na sala vazia vinha e ia como quem não vai chegar. Estava no quarto vazio olhando o reflexo distorcido no espelho. Sentia-se bela com sua face alva, seus seios firmes, sua boca vermelha. Aproximava-se e uma pequena feridinha purulenta surgia em sua mente. Ela espremia como se pudesse colocar para fora todos os pensamentos infeccionados .Ouvia a voz de sua mãe a gritar:
- Você é gorda e feia. Ninguém vai gostar de você.
Ela se espremia até ver o sangue brotar em sua face, até sua obra de arte estar manchada pela feiúra que lhe ensinaram a vestir. A maquiagem cobria a ferida transformando-a na eterna atriz das novelas dos anos 80. Exagerada, dram[atica, descontextualizada e irreal.
Ela pintava da cor da pele a ferida escura com casca e pus que ela mesma criou. E chorava baixinho no canto do quarto lembrando do tempo que era bela. Todos os dias ela prometia não se ferir. Mas não conseguia. Era como se a voz se calasse apenas com as marchas funebres, manchas e ferimentos. É como se a dor só cessasse com a cena repetida. É como tudo só fizesse sentido se ela atuasse seguindo o sopro do ponto.
Em um ato único, um dia ela escutou uma outra voz, doce como uma canção de ninar. Melodia de menino feliz e brilhante que lhe soprava no ouvido as verdades que nunca ouvira.
Ela se sentiu bela e plena. Ela se olhou no espelho, viu as feridas e entrou em cena. De cara limpa, coração aperto, seio desnudo e corpo descoberto. Ela era Ela. Inteira em suas luzes e sombras. De que vale riscar a face da moeda? No cara e coroa encontrou o ponto de equilíbrio da moeda, que naquele bailar, rápido em translação, transformava-se em esferas, luzes e cometas. Na união das faces, encontrou o ponto em que não se é tudo ou nada. Apenas se é.
sábado, 2 de outubro de 2010
orgânica morte
por Ana
Em minha parte de ser orgânico
tenho um jazigo rubro de vísceras cintilantes
Retumbante em meu estômago gás carbônico
Em meus olhos batalha a morte relutante.
Por alguns instantes paro a respiração
O sangue lentamente desanda a latejar
Tento, tento - esquento - combustão.
Brado aos deuses do fim que o fim há de chegar.
E se por acaso em meu ventre descansa
Da guerra e da foice, demônio alado
Dilacero-me de lâminas afiadas
E desperto à noite com o filho abortado.
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