quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Vento livre

Por Silvia Badim
Desenho de Ana Vasconcellos


Não se pode encapsular o amor. 


O amor é vento livre, que assola as planícies com sopros desgovernados. Que venta montanhas e cordilheiras em uivos surdos. Que carrega as águas que deslizam fortes pela cachoeira. O amor é vento que nasce pequeno, e sopra sem cessar até que possamos tirar os pés do chão. 

Não se pode encapsular o vento. A terra do amor é uma terra sem porto. O amor não se aporta, é navio sem âncora, conto sem ponto. Apenas se compartilha, se dissipa, se perde em si mesmo. Morre e renasce em diferentes formas. Uma, duas, dez, mil formas que enlaçam os corações desavisados.

O amor não cabe em nossas mãos, ele escorrega e alcança os ossos. Adentra a pele, perfura os vasos, e quando chega à medula já é outra coisa. É matéria prima do sangue, primo-irmão das células brancas e vermelhas. Mistura-se entranhado nas veias, e pulsa em diferentes tonalidades até ser expirado em ar quente pelos pulmões. O amor é a expiração que alcança o universo, em diferentes partículas. É o quente e o frio, o ar que volta para dentro para inflar a vida. O que é expelido para alcançar a morte.

Não se pode encapsular o ar. No momento em que tentamos colocá-lo dentro da garrafa, ele já é outra substância. O amor se transmuta fluído, se camufla entre desvarios, corre em passos largos para alcançar o horizonte que não tem endereço. 

Não se pode reter o vento. Diante da ventania não há nada que se possa fazer, e então sentamos quietos, com os cabelos soltos e a pele em poros abertos. Com os olhos vidrados e as mãos em prece, para acolher o mistério: o amor pode percorrer o indizível.

E com sua fala sem voz, nos conta segredos que não se fixam na memória. Segredos que nos espantam, e transbordam para além do que podemos lembrar com raciocínio linear. O amor é tesouro que juntamos, peça por peça, em sentimentos acumulados desde as primeiras sensações de nascer em si mesmo. O amor é tesouro de sentir, e não há baú capaz de abrigar a riqueza conquistada. O amor não tem tampa, molde, forma, espaço apertado. O espaço do amor é o espaço do mundo. 

Por vezes vem a agonia, e queremos prender o amor em alianças, papéis, regras, pílulas e tantos certos e errados. Ritos que celebram, símbolos que sacramentam, poderes de ditar ordens, remédios para aliviar a dor e evitar ameaças. Crenças de que o amor pode ser fincado no chão de terra, pode ser embalsamado pela casa construída, pode ser tijolo de pedra com cimento em cima. Crença de que o amor se possui, e se dirige.

Mas o amor é teimoso, e sua teimosia corrói as cordas. Vibra eletrizante pelas camadas duras. O amor não tem dogmas. É reino sem lei, com o rei deposto.

O amor pode ser vivido com ou sem presença, com uma, duas, três, quem sabe quantas pessoas. O amor é generoso. Pode ser flor solitária que desabrocha no deserto, ou pode caber justo no espaço da partilha de dois. Pode se esparramar para além do que podemos contar nas mãos, pode transbordar e alcançar os corpos nus ou, quem sabe, pode nunca ser tocado com os lábios. 

O amor não tem gênero, não tem idade, não conhece etnias e credos. Não tem rótulos ou caixinhas com etiquetas. O amor não tem nome, sobrenome, família e descendência. E ri a todo tempo das regras inventadas, tão frágeis e comezinhas. Boas risadas que nos surpreendem quando, de repente, o peito sopra e o coração diz em silêncio latente: eu amo.

E a gente ama. Mesmo quando não quer, mesmo quando não pode. Mesmo quando tudo dá errado, quando existe medo, quando as barreiras se erguem tão grandes que não conseguimos ver o céu. A gente ama embaixo da aliança apertada, quando o papel falha, quando a regra diz não. Quando a gente se espanta pelo que não pode e, de repente, de ponta cabeça, sente as artérias grossas carregarem os mais delicados sentimentos.   

A gente ama mesmo quando não tem voz para dizer, quando é inviável, quando a distância é tanta que parece sonho. A gente ama quando a vida aperta e corremos para longe do susto. A gente ama mesmo quando foge. 

E o amor não tem vaidade exacerbada, não desfila em poses de fotografia. O amor não sai na foto. Esparrama-se pela cor azul e branca do céu, pelo preto e branco que se esvai em tons de cinza, pelo tempo que mancha a lembrança do papel. Pelo vestido que não serve mais, pelo arrepio que percorre a pele embaixo do casaco, pelo escuro dos olhos fechados.  

O amor se espalha para ser inventado muitas vezes, para ser descoberto um pouco a cada dia, para adquirir novas e impossíveis formas.

O amor é irmão da liberdade, e qualquer sapato lhe aperta os pés. 

Estejamos descalços, enfim. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Algumas Tréguas


por Silvia Badim
desenho de Ana Vasconcellos




Para uma menina no seu país inventado.

“Temos tréguas de paz”, pensava eu no decolar do avião que saia de Buenos Aires, e me trazia de volta para casa. 

A busca incessante pela completude de ser, talvez fosse permeada por momentos em que nada mais é necessário, além daquilo que abrigamos no peito no momento em que se respira. E nesse momento eu respirava feliz, e aliviada por aceitar-me finita e cheia de anseios que nunca se satisfariam.

“Aceitar minha própria incompletude talvez seja a senha que preciso para acessar os meus segredos de paz”, suspirava eu ao olhar a janela com suas paisagens de nuvens gordas. Um tapete branco, suspenso no ar, acompanhava meus sonhos acordados de viagem. E eu estava desperta para a minha pequena existência faltante.  

As novidades dos dias passados acalentavam-me a alma sempre ansiosa e sedenta por algo mais. Chegara, enfim, num lugar onde eu queria estar. Um lugar meu que se aventurava a estar só, e andar só, pelos desrumos de se trilhar um caminho tão íntimo.  

Um lugar que nascera de tantos tempos de se estar perdida, com o coração batendo fora do peito. Um lugar que emergiu lá de dentro do fundo do poço, aquele mesmo fundo do poço que a minha amiga Lélia Almeida* descreveu como um lugar úmido e próspero, capaz de nos revelar nossas obscuridades salvadoras. Onde a aridez de si mesmo é quase insuportável, mas nos revela a matéria prima de ser o que se é. E assim nos salva das mesmices e armadilhas construídas para que nos separemos da nossa vida mais profunda.

O vôo seguia desconfortável, mas dentro de mim estava quente e bom. Sentia-me livre e desculpava a mim mesma por tudo que nunca poderia ser. Por tudo que eu nunca poderia tocar e nunca poderia experimentar em tempo de vida.

As limitações, enfim, me davam um sentido. E aprendi: eu nunca poderei tê-las. E, ao não tê-las, aceito reduzir-me ao que encontro nesse caminho estranho de se andar com as próprias pernas. Tudo que colho tem sentido, porque é o que me cabe. E é libertador livrar-me de querer o mundo que nunca pode me caber inteiro.

As horas seguiam com avisos do piloto e comidas apressadas. Com um sorriso discreto no canto da boca, voei devolvendo ao universo azul da janela o que nunca poderia ter. E como retribuição pela minha teimosia de tantos tempos, ele me devolveu presentes possíveis de se tocar com as duas mãos. 

Enfim, parecia ter aprendido a escolher. A aceitar as perdas do que nunca é quando se escolhe. E a ganhar o que me oferta o caminho escolhido.

Nesses tempos de viagem, suas linhas chegaram-me tão conhecidas. As letras familiares contavam-me sobre o anseio de acertar o passo dentre as tantas oportunidades de ser, que não se desdobravam em realidade. Um anseio de ser livre, de não precisar, de poder se desenvolver plenamente rumo ao crescimento que se almeja.

Mas o que, enfim, se almeja? Quando seguimos um caminho visando um desfecho, somos sempre surpreendidos pelo desfecho que não chega. Ou pelo desfecho vai aparecendo diferente das nossas expectativas, com cores e tons que nos machucam os olhos. As cores cinzas das incertezas e dos desvios não combinam com o colorido de um lugar pleno de primavera, que desenhamos como a nossa trilha esperada.

Mas não seria esse, também, um modo de se vivenciar o caminho? Não seria o cinza, também, uma bela cor para colorir os céus de si mesma? Lembro-me do Guimarães Rosa, e da travessia de que ele fala tanto no Grande Sertão Veredas.  A travessia é um bálsamo, onde se colhe as grandes riquezas que nos levam a qualquer lugar. É nesse meio do caminho, embolado e cheio de areias movediças, que se dispõem para nós as maiores grandezas de qualquer percurso.  

E só se pode chegar inteiro quando se vive a travessia. Alerta para o fato de que, aquele lugar em que imaginávamos chegar, nunca será aquele em que aportaremos num futuro próximo ou distante. A gente atravessa um rio a nado, diria Guimarães, e vamos parar numa margem bem diferente da que se pensou antes de pisar nas águas. As águas têm vida própria.

E, para as pessoas que não aceitam soluções prontas e massificadas, o caminho é muito mais longo, e as paragens muito mais mutáveis e escorregadias. Muitas voltas e percursos por desertos, tempestades, terras de gelo e lugares sem nenhuma cor. Mas que nos trazem, a todo tempo, delicadezas escondidas em espinhos e ventos cortantes.

Se o caminho tem coração, ele pulsa. E se o caminho é seu, ele é rico em aprendizados, e ele é como deveria ser. Mesmo com as durezas e asperezas de se andar de ponta cabeça por tantos quilômetros. Mesmo com a tontura de se ter o sangue na altura dos olhos, a vista turva, e nenhuma certeza de onde se possa pisar em terra firme e dormir abrigada do frio.

Aqui de longe torço para que você se acolha com a devida generosidade. Que saiba perder para poder ganhar, que saiba se ouvir para poder escutar o que o destino lhe traz com as mãos cheias de flores. Que saiba aceitar os tempos duros, o fundo do poço, os dias de sede e boca seca em frente ao mar.

Aqui de longe torço para que a sua força cresça em coragem, para que seu fogo se espalhe em brasas de esperança, e para que novos tempos possam emergir para te fazer feliz com o que trazes para deixar no mundo, seja ele o que for. E como for.

Conte comigo para inventar caminhos e dividir atalhos mais brandos nessa urgência de ser o que se é.

* Oração do fundo do poço, de Lélia Almeida: 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A dança de um


Das pensações da terra de Gaia.


Por Silvia Badim com sopros da menina do casarão. 


Desenho de Ana Vasconcellos






Chegou o momento em que só restava partir. Eu estava cansada, e um calor morno envolvia meus ombros. O dia era claro, daquela claridade de arder os olhos. E um frescor sem precedentes umedecia o vazio, apesar da seca que consumia tudo lá fora.

Não existia mais vida nas terras sem vento. Não havia música. E sem música, não há dança. 

Por vezes eu cantava, um lamento triste que lhe chegava aos ouvidos. Você ouvia, de longe, mas o eco não vinha. Era eu com a minha voz rouca, e o lamento grave. Eu queria dançar. 

Ensaiava os passos, e tentava sozinha conduzir a dança de dois. No improviso da minha dança desordenada, eu lhe convidava. Seguindo o pulso que vinha de dentro. O pulso do que dividíamos em segredo. Era muito, e era tanto. Mas você não dançava.

No seu sorriso distante, você se comovia pelo que tocávamos na imensidão aberta desse horizonte cor-de-rosa. E ao me tocar contava-me que sim, tudo existia, grande e disforme como aquilo que não tem nome, e que não pode ajustar-se à realidade que reduz. Não era possível ajustar-se a nada. Era leve e voava, sem lastro e sem pouso possível.   

Você acreditava em mim, e me concedia alguns minutos de dança no seu ritmo de um. Era o possível, e era o tempo que você me dava. O tempo presente do que não se realiza. Tempo de se querer mais, e não poder ter mais nada. Um tempo injusto.

Eu podia sentir a tristeza do que já se esvaia, do que voltava ao plano imaterial dos sentimentos em suspenso, mesmo antes da dança terminar. Era tudo tão triste e tão bonito, perfeito como tudo que não se toca com as mãos reais e frias. Nuvem colorida que nos acompanhava, onde quer que estivéssemos. Presentes e etéreos, em conexões mudas e dispersas pelos cantos que andávamos. Sempre um e outro, em cada canto. Dividindo nossa solidão impartilhável.

Eu encolhia a barriga para não apertar o seu espaço, e tentava acreditar que era possível aceitar a não dança como uma dança possível.

Mas eu quis desejar um pouco. Eu desejava. Uma dança leve, quase nada de tão delicada. Desejava que meu cavalo cavalgasse nas terras de dentro de mim, e que quase nenhuma guerra me escapasse pelos olhos. Que a vontade, toda ela, se deitasse em palavras até diminuir de intensidade e tamanho. E que eu, por determinação de mim, plainasse sob todo o relevo da geografia do meu desejo de vales e cachoeiras invisíveis.

Eu tive que soltar o cavalo. Um cavalo selvagem não sobrevive sem a liberdade de ir de encontro ao que deseja. Não há cachoeira a qual se possa controlar o fluxo, e os grandes vales jamais se tornam planícies.

Foi então que eu soube: eu não posso. Não, não mais. Eu não posso sustentar tamanha leveza. Eu sou humana ainda. Preciso da música dançada a dois. Do movimento que se solta pelo que faz sentido, feito a quatro pés e braços juntos, que não se recolhem antes da música terminar.

Quem sabe se eu prometesse esperar qualquer soma de dias com o sorriso de sempre e sem saudades. Quem sabe se parasse de doer à ausência muda, e as expectativas pudessem se transformar em flores. Quem sabe se eu pudesse viver pela metade, respirar em pedaços desconexos, me envolver em outros corpos sem carregar a sua presença silenciosa nas minhas extremidades. Mas essa não seria eu. Certamente, não seria eu.  

Eu preciso da música ritmada. Cantada, tocada em instrumentos vivos. Preciso poder desejar. Não posso mais estar contida no quadrado que você me dá. Preciso da resposta que chegue ainda quente, da continuidade palpável. Eu preciso ir além, espalhar-me solta e fluida pelos arredores, viver tocando o que existe por trás de. Mesmo que o que exista seja menor, tão menor, do que tudo que pode ser. Mas, é hora de ser. Qualquer coisa, mesmo que não seja.

Contenho as lágrimas. Não é mais possível alimentar-se de poucas migalhas, pois eu tenho fome. O estômago não pode mais digerir a si mesmo, queimando-se pelo ácido em excesso do que não vem. 

E tanta coisa eu ainda não sei. Não sei viver assim, leve no meio da fumaça que arde os olhos pelo que não se enxerga. No meio do labirinto sem pistas, tentando decifrar as tantas perguntas sem resposta.  Eu preciso pisar o chão, descansar sob as árvores com sombra fresca e água em abundância. Essas coisas bobas, você sabe. Que fazem todo sentido na minha andança no mundo dos homens. 

Eu não preciso de muito, não. Nessa etapa do caminho, sinto-me feliz e livre em apenas ser. E ser miúdo, dividir o tempo pequeno do que é grande. Sem peso ou amarras que nos façam doer as costas. E quero a liberdade de apenas viver, junto, o que existe porque é junto. E nada mais. O resto é resto, e o resto pode ser descartado porque não nos cabe. Formalidades, enredos, linearidade, nada disso nos cabe. Mas há de me caber o viver. Porque sem ele, não tem roupa nem comida quente. É estar sempre no frio da solidão, nua no gelo do ártico. 

Mas sabe, eu ainda acredito. Você conseguiu penetrar lá no fundo, na imensidão escura de mim. E lá está, na utopia do encontro, no entendimento profundo e quente que alivia a alma. Um lugar seu, só seu, bem guardado nas melhores lembranças do coração. Que me acompanhará e me dirá palavras bonitas, quando de repente eu olhar para o céu e lembrar que eu não estou só. 

Mas algo não se move mais. E eu preciso de movimento.
Preciso me libertar de onde sufoca pela completa ausência de ar. Eu preciso de vento. 

É, não consigo mais. Preciso juntar os dois pés ao meu lado e ir de encontro ao que for inteiro. Despeço-me ainda sem saudades da sua ausência. Pois sua presença invisível descansará risonha dentro dos meus olhos por longo tempo. Sua ausência longa, constante, imóvel se espalhou tão permitida dentro de mim, que agora ela é exalada com a respiração ofegante.

As portas estão abertas, eu sei. Não há cadeado ou chave. É só ir.
E então eu vou.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O contratempo da dança

Pela menina do casarão e pela menina dos ventos
Quatro mãos pensando juntas na terra de Gaia


Desenho de Ana Vasconcellos



A saudade é minha. A saudade é uma prece.

A saudade é minha. Um vazio de muitas vozes. Canto silencioso. Um lamento divino sem palavras. Um côncavo onde mora o impulso da dança. A saudade é o contratempo da dança, o segundo estático antes do movimento. Que pode durar muitos dias, que pode durar um tempo sem tempo. A dança é de dois e a saudade é só. Uma saudade inteira de estar partilhada, e tão cheia de si.

Às vezes eu queria vedar, aplacar, deixar de sentir. O vento corta a pele branca, arranha os poros abertos. Conta segredos de dor e traz nas mãos a falta gelada. Às vezes sinto que não posso mais. Preciso descansar embalada em um colo quente. Eu sou pequena ainda. Mas é certo que eu não estaria viva com tudo fechado. A dança não acontece sem ar. Diante da musica não há nada o que se possa fazer, e então eu danço. A dança também sou eu.

E depois de tudo aplacado, o que vem? Ninguém mais mora ali na terra sem vento. As janelas não esperam mais pela brisa morna. Não anoitece ali. Os olhos esperam exaustos por sono nenhum. Não há sono possível. E eu deixo escorrer pelos dedos o que não me cabe mais.

Só há então seguir o pulso, ir de encontro à saudade: a mais bela e friorenta jornada. A mais verdadeira dança, marcada pelo corpo que se move pelo que vem de dentro. Um corpo nu habitado de seu próprio desejo, correndo no vento dos dias de ser. Só ser em silencio imenso e fundo de si mesmo. Encontro que revigora a força motriz. Que me importa se não sei o que vira? Que me importa não saber? Que seja. Que seja o vôo improvável. Eu desejo. Estou livre.

E o sangue corre na falta. Quente escarlate que aquece a pele fria. No desequilíbrio o salto se forma e é leve, improviso que compõe a estética estranha de ser o que se é. Na saudade muda do desejo, a mágica floresce. Enlace harmônico em segredo.

O segredo da utopia palpável, ainda viva na memória do corpo. A utopia de caber no teu amor guardado, sem força nem esforço, respirando a alegria de estar ali. O movimento conjunto que desliza no improviso, que voa e aterrisa suave, que cabe exato no ajuste do espaço da partilha. A utopia de uma proximidade de encaixe perfeito. A utopia da delicadeza possível. De se entender sem falar. A utopia da escuta plena, de caber no que há de sublime dentro de nós. E de lá sair para caber no sublime do tempo que você me deu. A utopia de diante do medo, sorrir em segredo de presença partilhada. Onde toda força não assusta. Onde o movimento é um sim que floresce em terra boa.

Fecho os olhos e de todas as possibilidades desejo o mais bonito, o indizível. Desejo deixar ser, deixar vir. Desejo espaço para vir a sua força. Não reluto: entrego digo e calo. Aceito. Desejo ausência por que nela há vento, e o vento alimenta. O alimento do vento é perfume. Acolho a saudades, e agradeço a ausência que me deixa habitada de desejo. Na falta que me habita sou uma, sou muitas, e ali estou incandescente. Minha falta também sou eu.
                                                  
Você testemunha a minha falta, você me testemunha à distância. Esse eu tão cheio de pequenas grandezas, de forças e fraquezas perdidas no espaço. Ali onde não estamos, também estamos por completo. Grandes, sólidos, inventados. Na falta que pode ser leve, que também pode voar. E que voa. A gente brinca e pode rir dela, espalhada e disforme em nós mesmos. Ela também é amor. Amor dividido de olhos fechados. Ou quando no escuro te procuro e teus olhos mergulham em mar aberto.

Você vem, me toma, e no segundo seguinte me devolve para mim. E essa é a coisa mais triste e linda que seu amor me dá de presente. Amor de generosidades. Que nada retém, tudo é pertencimento. Que me penetra e me devolve inteira para eu ser eu mesma.

E então sobra um sorriso besta no canto da boca, um sol na nuca que me aquece os ombros. A coluna acesa pelo toque sutil do seu dorso. Sobra a presença silenciosa dos teus olhos negros, a utopia de caber no seu abraço e de sentir tudo aquecido por dentro.

Sim, a saudade é minha.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Pequenas aberturas



Por Silvia Badim/Gaia
Desenho de Ana Vasconcellos 


Ela não sabia muito bem como havia se dado o partir. De repente, como num susto, ela já havia ido. 


Não conseguia explicar em que momento partira-se, esparramando seus pequenos pedaços pelos tantos anos de existência conjunta. Não havia sobrado nada de pé, em que pudesse se firmar para o seguir dos dias. Ela estava ida, com os rastros da sua presença rarefeita a habitar a casa comum.  A casa esvaziada, com as molduras preenchidas pelo vazio dos tempos futuros. 

Ela partira assim, sem aviso, como um vaso adornado que se quebra em pedaços coloridos, empurrado da estante pelo sopro dos ventos. A janela, por descuido, estava aberta. E o acaso pode varrer as certezas que ela não sabia mais se tinha. 

Despida de certezas e em pedaços que não mais se juntavam, ela se foi. Ainda confusa com o sentir-se tão só e tão povoada de si. Ainda com frio pelo vento gelado que inundou-lhe o corpo, atônita por não saber mais onde era o chão. O vento-furação veio sem pedir licença. Ou talvez tivesse pedido, baixinho, em língua estranha, suplicando-lhe o movimento. Ela também era filha dos ventos. 

Gostava de sentir o vento bater no seu rosto, e de saber-se portadora de asas inventadas capazes de levá-la a céus imensos. Fazia tempo que não ventava. Ela havido se encolhido, no conforto quente das janelas fechadas. Ali, carangueja, na concha emprestada, guardada dos arroubos de suas asas. 

Mas, em um gesto impensado, ela tirou as travas e o vento inundou a janela - a grande janela da sala da qual via o jardim vivo.  

Ventou, e ela abriu-se para receber os ventos. Sua saia voava, e ela espalhava-se pelo ar leve do dia de sol. 

Rodopio, vento-arrepio. Ela também estava viva. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sem muros





Por Silvia Badim
Desenho de Ana Vasconcellos


Em algum lugar eu desejei que parasse de doer. 
E foi aos poucos que eu me aproximei da dor, olhando de frente para o seu semblante distorcido. 
Foi com coragem pequena e medo grande, pisando leve para não acordar os monstros, e correr para longe do susto. 
Eu não queria mais que doesse sem remédio.

O sangue quente e o cavalo inquieto dentro do peito. Não havia meios de acalmar o cavalo, que relinchava pulando sobre si mesmo. Então abri o coração para arejar o sangue que fervia. Com uma dose a mais de coragem, para enxergar as minhas próprias faltas. 
Ferveu, e eu acalmei. Ventou um vento bom que acalentou a alma incandescente. 

Acalmei o cavalo e abracei os arejados espaços vazios, que sopraram uma música doce que me fez dançar madrugada adentro. 
Coloquei um vestido longo, com flores vermelhas, e dancei o vazio, com sua melodia suave e seus acordes cheios de voz. O cheiro de alecrim perfumou a noite. O meu vazio, as minhas faltas, as minhas vontades. Tudo vivo e tudo tão meu. Eu não tenho mais medo da dor. 

Respirei as contrações, em seu pulso ritmado. O parto pode, afinal, ser uma experiência de prazer. Mas para isso é preciso se entregar para o fluxo da natureza. Sinto o fluxo percorrer meu corpo, e não mais controlo. Apenas sinto, livre das minhas próprias armadilhas. 

Dói, e a dor faz parte. E eu a enxergo agora com mais nitidez. Dói o gozo profundo da própria vida. Dói o amor, o nascer, a morte. E assim sendo, eu quero também a dor. Quero viver a vida pequena e frágil, com seus revezes e experiências de prazer.  Como pode não doer? Aceito.

E deixo fluir. Posso nadar na correnteza sem bater os braços e as pernas em sentido contrário. Sem medo de sucumbir à força das águas, que correm sempre sem dizer para onde vão. Não quero mais a racionalidade autoritária e tirana de mim mesma. Finalmente, eu enxergo. E posso me deixar levar pelo que não conheço. Pode doer, que a dor passa. Só a dor vivida é adubo para os novos tempos. 

As piores prisões, realmente, são as que não têm muros. E eu quero a minha liberdade vigiada, por mim mesma. Com dores e amores bem vividos. 

Corre cavalo, corre sem muros invisíveis. 

Axé. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Pulso

Por Gaia/Silvia Badim
Imagem de Ana Vasconcellos




Estava cansada de tentar conter os excessos. 

De novo lá estava ela embaralhada com o muito que nunca ficava pouco. De novo tentando conter a enxurrada que queria correr ladeira abaixo, tapar os ouvidos para não ouvir os gritos graves que antecediam a trovoada.

Ela tentava, e os excessos escoavam ligeiros. Sempre adiante de seus gestos atrapalhados. 


Juntava os pequenos gravetos que tinha nas mãos. Em gestos quase patéticos, insistia em fazer uma barreira com os pedaços quebrados, equilibrando-os cuidadosamente em obra sempre inacabada. E ao fim, terminava por assistir o desmoronamento da cerca inventada, e a força bruta da natureza incontida.

O muito sempre era muito.

Ela própria, sempre transbordando as tantas coisas que não lhe cabiam. Sempre expelindo os exageros dos dias difíceis, a gastura das grosserias da vida, a tontura dos desencontros. O amor, o tesão, a falta, o fim, a raiva incompreendida. A beleza e a poesia de tudo que via, e que não podia guardar dentro de si. A dor pontuda que lhe apertava o peito, e que não podia carregar dentro de si. 

Nada nunca era pouco.

Vivia seu desequilíbrio de quem anda constantemente com os pés descalços, sob as pedras quentes. De quem vê pelos dedos de tudo que toca. De quem tem muitos olhos para guardar sensações distintas. De quem tem peito grande para sentir todos os arrepios que sopram com os ventos.

Ela estava cansada, sim, cansava-se. Queria esvaziar o muito, derreter com o suor guardado de todas as escaladas empreendidas. Soltar as mãos e deixar ir tudo de tudo que estava lá, amontoando as suas estruturas inchadas.

No meio do cansaço, cuidava da saúde que reclamava do que vazava sem controle. Do corpo que pedia trégua. Da ambiguidade que precisava vencer para seguir em frente.

Queria fazer casa leve, pisar suave, comer com calma a comida da alma. Fazer refeição quente e cuidadosa, capaz de nutrir a necessidade de silêncio interior. Mas pressentia que em poucos momentos, o próprio vazio tornaria-se excesso.  E vazio em excesso também é muito.

“Deve ter uma fonte”, pensava ela. “Deve ter uma fonte do muito”.

Procurou tanto sem resposta, que chegou a conclusão a correnteza brotava de todos os poros abertos. “A nascente do rio espalha-se por uma vasta terra disforme”, lembrou-se ela, invocando as imagens guardadas na retina das vastas nascentes do Rio que tinha nome de Santo.

Talvez a fonte fosse ela própria, toda ela. Coração que pulsa indefinido as intensidades excessivas que faziam dela o que ela existia no mundo. Talvez a própria vida fosse muito, intensamente desordenada, e ela apenas a reverenciasse, súdita fiel do impulso vital.

Talvez ela apenas dançasse a dança da vida, em passos largos e sem ensaio, contraindo-se e expelindo o pulso motriz de tudo que vive.

Talvez o caminho fosse parar de conter. Parar de se debater na correnteza. 

E que assim fosse: pulso, pulso, pulso.